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sábado, 7 de dezembro de 2013

Imaginar, escrever

O que chamamos literatura é a metaforização ilimitada da viagem - limitada - da vida. Não importa que esta projecção metafórica se realize a partir de um cenário imóvel, nem sequer que o seu artífice renuncie a toda e qualquer deslocação física: em todos os casos, o escritor viaja sob o impulso do imprescindível motor da imaginação. Sem esse motor, não existe qualquer possibilidade de criação artística. Poderíamos estar todos de acordo a este respeito. Recordemos, contudo, que todas as tentativas de iluminar o significado da imaginação se realizaram sempre, obrigatoriamente, em termos de viagem e, mais concretamente, recorrendo ao contraste entre a realidade empírica, quotidiana, do homem e «outra realidade» atravessada por um sem fim de trajectos que conduzem a todas as partes e, simultaneamente, a nenhuma. Imaginar é percorrer, à deriva, alguns desses trajectos. Escrever é tratar de superar a deriva através da ilusão de um rumo.

Rafael Argullol, «El "Viaje de viajes"» em Maldita perfección. Escritos sobre el sacrifício y la celebración de la belleza, Alcantilado, Barcelona, 2013.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Fármaco

Fausto é mais convincente, a partir da consciência moderna, quando se erige em discípulo de Bacon e, especialmente, quando confia na técnica como o principal fármaco do homem para afastar o pesadelo do isolamento cósmico. Porque, de facto, este fármaco só adquire pleno poder no momento em que o Deus espectral que nos ronda, e através da grande engrenagem de Newton, não só é tido como indemonstrável, mas é também declarado indesejável. A técnica é o sonho de autodeterminação do homem que coincide com a maior consciência de solidão.
Sob os impulsos deste sonho, a natureza chamada inanimada constitui um mero campo de experimentação. O máximo esplendor da utopia científico-técnica coincide com esta ideia, se bem que a moderna concepção matemático-experimental da natureza implique uma dupla repercussão sobre a imagem do homem. Por um lado, ao apresentar-se o cosmos como uma engrenagem perfeita, o conhecimento consiste em descobrir progressivamente as leis universais desta engrenagem. Por outro lado, ao ser esperançosamente factível a possibilidade deste descobrimento, o conhecimento deve facilitar, mediante a técnica, o domínio do cosmos. Conhecer é avançar até às leis ainda não reveladas, enquanto dominar é utilizar as leis já conhecidas. A «idade do progresso» converte o cientista em profeta e o engenheiro em messias.

Rafael Argullol, «La soledad después de Shakespeare», em Maldita perfección. Escritos sobre el sacrifício y la celebración de la beleza, Alantilado, Barcelona, 2013.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sete argumentos para defender a poesia por entre o ruído


Sete argumentos para defender a poesia por entre o ruído. Também poderia ser: Sete argumentos para defender a utopia por entre os lugares comuns. Em ambos os casos, os argumentos são também cenários e atitudes. O silêncio, a origem, o intempestividade, a depuração, a lentidão, o jogo, a jovialidade. Há uma dependência mútua entre eles, e creio que servem para definir, hoje, tanto as coordenadas do facto poético como as pistas de uma certa rebeldia ou resistência.
O silêncio, em primeiro lugar, porque a poesia está essencialmente vinculada ao silêncio. Inclusivamente, num sentido anatómico. A poesia é um gotejo verbal que parte do silêncio, marca a fronteira do silêncio. É importante dizê-lo num momento em que nos movemos numa vertigem de ruído.

Rafael Argullol em Maldita perfección, escritos sobre el sacrifício y la celebración de la belleza, Acantilado, Barcelona, 2013.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Opinião pública

Os que falam enfaticamente da opinião pública esquecem que o público não tem opinião, mas apenas olfacto. À semelhança do chacal, orienta-se farejando o rasto da carniça.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O igualitarismo do gosto

Que a riqueza não se medirá no futuro pelo dinheiro é algo que se evidencia ao comprovar como, já na actualidade, muita gente com dinheiro possui escassa riqueza ou, se quisermos, possui com escassa qualidade: basta observar como os ricos imitam os pobres diante do écrã ou no estádio, e que estes últimos não são já mais analfabetos que aqueles e que uns e outros partilham a verdade única da propaganda publicitária. Por mais assombroso que seja, a desigualdade das contas bancárias não anula um crescente igualitarismo do gosto, ou melhor do mau gosto, que se observa em tudo, porém, mais do que na rua, na decoração e nas ornamentações da intimidade.

Rafael Argullol em «Carreteras Invisibles», Enciclopedia del crepúsculo, Acantilado, Barcelona, 2005.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Política

Política: Da arte do possível ao artesanato do desastre.

Rafael Argullol, Breviario de la aurora, Acantilado, Barcelona, 2006

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O caderno cinzento, de Josep Pla

Saúdo os Livros Cotovia pela publicação de O caderno cinzento de Josep Pla, autor das minhas simpatias e leitura de há muito tempo. Um daqueles autores cuja família de leitores se alarga transmitindo a outros o segredo da sua existência (embora em Espanha, Pla seja um clássico). El cuaderno gris, que surge muitas vezes em edições autónomas, integra um conjunto muito vasto de Dietários deste autor catalão. É impressionante o tempo que levou a chegar aqui. Mas chegou e isso é que agora importa. Outros ainda não tiveram a mesma sorte. Mas isso tem que ver sobretudo com os editores, na dupla acepção de «casas editoras» e de «estrelas-da-companhia». Enfim, é o que temos. E estamos bem, porque parecem sempre estar muito satisfeitos consigo próprios. Desconhecem Pla como desconhecem Rafael Argullol, autor de uma obra vasta que inclui o recente Visión desde el fondo del mar (Acantilado), que, por ter sido premiado e por ter eventualmente aparecido nalguma revista mais a modo, pode ainda vir a ter alguma vaga e remota hipótese de vir a ser traduzido. Não poderia falar da edição de O caderno cinzento sem falar da capa, bela capa, na linha das que a editora nos habituou, longe do folclore alucinante que enche as bancas das livrarias.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Preferências

Escândalo: Preferir a solidão do lobo à unanimidade das ovelhas.

Rafael Argullol, Breviario de la aurora, Acantilado, Barcelona, 2006.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

As grandes ideias

Quando se formula uma grande ideia é sempre preciso começar por pensar nas vítimas que produzirá.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cicatrizes

Não devemos evitar as feridas que certos pensamentos cortantes como espadas produzem em nós: um espírito curtido está inevitavelmente cheio de cicatrizes.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Intuição popular

A cidade, como queria Platão, deveria ser governada por sábios. No entanto, uma cidade governada por sábios sucumbiria, a sangue e fogo, sob o peso da verdade. A mentira é mais ligeira. Não tem a grandeza da verdade, mas também não tem o seu perigo. Graças a esta intuição popular, os políticos serão sempre uma espécie inextinguível.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Tragicomédia da vulgaridade

Contudo, a modalidade mais irritante desta tragicomédia da vulgaridade é o autopsicologismo daqueles autores que acham épica a sua própria mediocridade.

Rafael Argullol, Enciclopedia del crepúsculo, Acantilado, Barcelona, 2005.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O poder subtil

[...] E, não obstante, Orfeu não era um herói habitual: não possuía a força de Hércules, nem a valentia de Aquiles, nem a astúcia de Ulisses, nem a sabedoria oracular de Tirésias. Era, pelo contrário, um homem frágil, suave, cujas façanhas se destacavam, não pela sua tenacidade ou violência, mas sim pela subtileza. Ninguém podia superar este poder subtil.
Disso emana o mistério de Orfeu: o seu poder brota de uma fonte que os outros heróis desconhecem. Nem mesmo os homens, modernos ou antigos, o reconheceram com exactidão. Mas a água desse manancial fala-nos de outras regiões da consciência, de outros territórios do espírito, de caminhos que estão antes daquilo a que chamamos nascimento e depois do que cremos ser a morte. Orfeu não revela a origem do caudal que o alimenta, mas, em compensação, revelou aos homens o nome desse pacífico, tempestuoso caudal eterno: a música.
A superioridade de Orfeu é este poder subtil. Com ele paralisa o inferno para resgatar a sua amada Eurídice; com ele amansa a matilha, com ele se oferece à morte e brilha no renascimento. Rilke, nos seus Sonetos a Orfeu, expô-lo de forma belamente concisa:

nnnnnnnnnnnnnnnnSó quem a lira assim
nnnnnnnnnnnnnnnnnas sombras já empunhar
nnnnnnnnnnnnnnnnpode o louvor sem fim
nnnnnnnnnnnnnnnnpressentindo entoar.
nnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn(trad. de Vasco Graça Moura)

Rafael Argullol, Enciclopedia del crepúsculo, Acantilado, Barcelona, 2005.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A essência da linguagem

A verdade existe, mas não pode expressar-se. Pelo contrário, o que expressamos já não é verdade. Nisso radica a essência da linguagem: a linguagem é o refúgio que naturalmente construímos para nos protegermos da escandalosa existência da verdade.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pátria

Trago a minha pátria comigo como a memória traz as recordações. É um país sem fronteiras, do qual só eu sou guia e anfitrião. Os seus lugares, belos ou terríveis, só eu os conheço. A casa solarenga, construi-a eu só, com actos e sonhos meus. Nela tive muitos convidados; uma parte deles permanece junto de mim, celebrando o banquete; alguns foram-se; outros, provavelmente, hão-de vir. Ainda que, por vezes, penso que a minha pátria não tem nem convidados nem casa nem país, e se reduz à minha própria sombra durante apenas um instante antes do meio-dia.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

terça-feira, 16 de março de 2010

Vingança

A vingança — o único problema moral. A vingança é um alívio que não nos eleva.
Quer nos vinguemos, quer não nos vinguemos, não somos felizes. Talvez valha mais escolher o infortúnio de não nos vingarmos.

Cioran, Cahiers 1957-1972, Gallimard, 1997.

A tendência para a vingança depois do agravo sofrido é perfeitamente justificável. Se conseguirmos, porém, substituir o princípio da justiça pelo do prazer, é preferível não a levar a cabo. Uma vez concebida a vingança, até aos detalhes mais ínfimos, dá mais prazer suspender a sua execução e começar a gozar os privilégios do desprezo.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Novo-riquismo

Os novos-ricos do conhecimento são aqueles que, ao contemplar o mar, estão convencidos de que Posídon nunca existiu.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lugar comum

«No hay lugar más peligroso que el lugar común: parece el menos arriesgado pero no tiene escapatoria.»

Rafael Argullol
El cazador de instantes