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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Boas notícias por más razões

Multiplicam-se as notícias de que as narrativas breves conhecem hoje um aumento de popularidade.
Não há muito tempo, os editores lamentavam-se de que a publicação de livros de contos se tornara impossível, pois não havia procura. Os livros não se vendiam.
Também eu lamentei a menorização do conto relativamente ao romance. A arte do conto é, a muitos títulos, bem mais difícil do que a do romance: a brevidade exige um domínio absoluto dos meios. A imperfeição que perdoamos no romance, no conto pode ser imperdoável.
Como se dizia alguém no fim de uma longa carta a um amigo, «desculpa, mas não tive tempo de escrever menos». Escrever menos exige mais tempo, mais técnica, mais concentração, mais densidade.
Porém, as tais notícias acrescentam que a narrativa breve se impôs de novo devido à internet e fica implícito que isso se deve às necessidades de escrita (e de leitura, digo eu) impostas pelos mecanismos oferecidos por este meio de produção e difusão.
Que haja um renascimento do interesse pela história curta, é bom. Mas é preciso não esquecer que ela exige também uma maior concentração da parte do leitor. Ler um aforismo, um fragmento, um micro-conto, uma ficção breve não demora um instante. Bem pelo contrário.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prospectiva

1.
It's going to be cultic... Always people will be reading, but will be a small group of people ...maybe more than are reading latin poetry... but somewhere in that range.

2.
To read a novel requires a kind of concentration, focus, devotion to the reading..., (...) that kind of concentration, focus, attentiveness, it's hard to come by, it's hard to find...

3.
... I don't think the Kindle will make any difference to what I'm talking about...

Philip Roth em entrevista

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tecnologia: de volta à idade da pedra.

Ouço falar sobre as «funcionalidades» que os suportes para leitura de livros electrónicos permitem accionar. Fala-se, por exemplo, de uma maior aproximação entre leitor e autor, com o acesso directo ao twitter deste último, que se supõe dever ser incessantemente alimentado. Estamos a voltar à idade da pedra! A única aproximação do leitor ao autor deveria ser a obra do cavalheiro que escreve. Tudo o resto é espúrio. Tudo o resto é a menorização da própria escrita e a negação da natureza do literário. Em geral, a única aproximação interessante a uma figura autoral é pela mediação da escrita, de outros ou do próprio (crítica, ensaio, biografia, diário, correspondência, memórias, etc.), ou eventualmente pela sua presença, forçada e formal, de modo a que as suas palavras adquiram um sentido que não se enquadre no puro quotidiano. Tudo o resto é espúrio. Tudo o resto é estúpido. E aos autores que com isto se encantam, recordar-lhes-ia que, como diz o meu pai, enquanto se canta, não se assobia.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dos livros - III

A antecipação é um dos grandes labores do erotismo. Não direi que tenha desaparecido por completo, mas como explicar aos imediatistas de hoje a perda do gesto de antecipado encanto, de premeditada descoberta, o gesto inaugural de abrir um livro, de fazer deslizar a lâmina quase silenciosa por entre as folhas, apressado e brusco certas vezes, outras vezes lento e delicado, preliminar da leitura opulenta?