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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Memórias Intactas (7 de 7)

Naquela janela de angélica luz o Tempo parece anular-se. Quando por fim consigo partir, chega a notícia de que o museu vai fechar. Já não tenho tempo senão para um breve relance sobre a Descida da Cruz — outro tema constante, de incessante variação —, de Rogier Van der Weyden, um monumento de composição cenográfica. Mas tenho de sair. Estive no Museu, não as três horas de don Eugenio, mas pouco mais de uma. Foi melhor assim. Chega-se a uma idade em que percebemos que se deveria ir aos museus ver apenas um quadro de cada vez.

Chega-se a uma idade em que aprendemos até nos livros que se não leram*.



*Alguns dias depois de escrever este texto, a pessoa a quem ele foi dedicado pôs-me nas mãos o livro que eu não soubera encontrar. Da sua leitura posterior retenho aqui esta passagem: «El amigo se contentará, pues, con una estación ante la tabla de La Anunciación, del Beato Angélico. Prolónguela, la estación, tanto como pueda.»

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Memórias Intactas (5 de 7)

De São Marcos, conheço duas Anunciações a fresco de Fra Angelico. Uma delas foi pintada no interior de uma das celas (c. 1441-1443), e a cena está representada num espaço quase fechado, despido de ornamentação, permitindo fazer convergir toda a atenção nas figuras etéreas do Anjo e da Virgem, ou, talvez melhor, na relação entre ambas. O despojamento é mais profundo do que em pintores um pouco anteriores, como Lorenzo Monaco, e está longe da tradição representada, por exemplo, por Robert Campin, que apresenta a Virgem a ler, no interior de uma sala profusamente decorada (c. 1425). O livro parece ter servido desde sempre para acentuar o inesperado da visita do Anjo, a interrupção da leitura despreocupada, e, ao mesmo tempo, revela a natureza recolhida de Maria: mas no pintor flamengo é mais do que uma simples nota, é o próprio cerne da cena doméstica. A dramaticidade perde-se em favor do cenário, enquanto na tábua de Monaco (c. 1410), pintada para um retábulo, o conteúdo da narrativa bíblica concentra-se na fisionomia das personagens. O outro fresco de São Marcos (c. 1450) está mais próximo de outras Anunciações de Fra Angelico: a que se encontra no Museu Diocesano de Cortona (c. 1432) e esta que agora tive diante dos olhos (c. 1430), trazida para Espanha pelo Duque de Lerma, e que pertenceu à igreja do Convento de São Domingos, em Fiesole.
Entre elas há, porém, diferenças que transcendem as de carácter decorativo, simbólico ou catequético. No fresco do corredor do Convento de São Marcos, o Anjo anunciador já tem a postura reverente que está ausente do fresco da cela. O Espírito Santo não está representado. A Virgem escuta, paciente. Apenas um imperceptível alarme passa no seu olhar. Nada que se pareça com a viva retracção de Maria, apesar do ramo de oliveira que o Anjo Gabriel lhe apresenta, na Anunciação do retábulo da Catedral de Siena (1333) atribuído a Simone Martini. [continua]

domingo, 22 de maio de 2011

Memórias Intactas

A pintura de Chardin. Interiores de uma intimidade burguesa e contida: do chá fumegante e solitário de Marguerite, a senhora Chardin, aos episódios domésticos da «acção de graças» e da «toilette matinal». O gesto melancólico de umaa bordadeira. Jovens, sobriamente contracenando com uma mesa, cadeira ou escrivaninha, estabelecem um diálogo mudo com objectos pequenos e comuns, talvez simbólicos: cartas, pião, lápis. A juventude e candura absolutas da espantosa menina da raqueta e do volante irrompem iluminadas de dentro (inquieto-me, porém, sempre que a admiro, com o que me leva a pensar em Balthus). Em Chardin, a surpresa não está no pormenor do desenho, mas na consistência do conjunto, na arquitectura do instante. Dominam os castanhos, os vermelhos, os brancos, alguns azuis. Absorto num quarteto de Haydn, detenho-me nas naturezas-mortas: cobres, vidros, porcelanas, madeiras. Caça, pão, vinho, frutos, mesas acesas por esplêndidos copos com água. O esfumado estojo do fumador. A irrecusável epifania de um cesto de morangos. Pintura de um mestre discreto, bem acomodada no seu século, nada tem que possa servir para incensar a modernidade. Mas a sua lição — que é também a da representação do silêncio —, suscita em mim uma simpatia absoluta.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cozinha

Tenho hoje uma noção muito mais precisa de que a cozinha é, como aliás também o sexo, o que a pintura era para Leonardo: cosa mentale.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Memórias Intactas

Ao almoço, na Tate velha, ainda fulminado pela luz irradiante e intensa dos quadros de Turner, uma salada de cores gregas: alcachofras, tomate seco, queijo feta, azeitonas pretas. Há quase sempre, na pintura de Turner, um conteúdo dramático em que a luz — melhor seria dizer as cores da luz — submete todo o elenco das restantes dramatis personae para triunfar ela só, sobre tudo e todos. A dimensão figurativa é progressivamente perturbada pela girândola do tremendo e do sublime até quase se desvanecer, para se tornar apenas pintura de uma visão ou, porque não dizê-lo, apenas pintura. Ocorre-me a relação inesperada com a rota da pintura de Rothko: também na sua obra a mancha e a cor triunfaram sobre a pura representação, tornando-se representação pura de conteúdos, não já romanticamente sublimes nem tremendos, mas puramente dramáticos, desnudadamente trágicos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sobre a pintura de Francis Bacon

Espelho inquietante em que nos olhamos de frente e nos vemos de costas.

domingo, 31 de outubro de 2010

A sombra do pintor

Anotei uma vez, a pretexto de uma mostra de Bonnard, que a pintura que mais me toca é a que, a meio do caminho entre o real e a sua transfiguração, deixa, de algum modo percebida, a sombra do pintor. Acabei de confirmar essa convicção íntima vendo a retrospectiva de Victor Willing.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Céus

Não existe um céu, existem céus. Invocamo-los, para eles erguemos o rosto, deles sentimos a leveza ou o peso, neles buscamos. Mas compreender, talvez só compreendamos os céus pintados, céus matéricos, anuviados, acrílicos, rugosos, fendidos por cores, falsos — reais.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Cinema, pintura, música

No filme de Luca Guadagnino que referi aqui aparecem pinturas de Giorgio Morandi (aliás como sinais de um certo luxo ascético, do gosto requintado de connoisseurs). Tal como no cenário de algumas pinturas de Balthus aparecem pequenas alusões ou homenagens à pintura de Morandi.

Morandi é um dos meus pintores. Na pintura de Morandi, domina-me o olhar o verso vertical e sibilante de cummings: nothing can surpass the mystery of stillness.

Mas, no meu espírito, estabelece-se ainda uma relação entre a pintura de Morandi e certas miniaturas de Satie. O mesmo lirismo cromático e rigoroso. O mesmo abstraccionismo rítmico. A mesma humanidade do concreto.