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domingo, 7 de outubro de 2012

As letras na sopa

De tal modo se literaturizou a cultura que o homem acabou por encontrar as letras na sopa. O homem de letras quis alfabetizar até a sua alimentação: e este ridículo exagero alegórico foi bastante significativo, pois estas letras eram da mesma massa, não do que os nossos sonhos, mas do que as nossas letras; da mesma massa de uma literatura ou poesia literata ou literaturizada na qual também se pasteuriza e esteriliza alfabeticamente o pensamento.

José Bergamín, La decadencia del analfabetismo, Biblioteca de Ensayo, Ediciones Siruela, Madrid, 2000.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sombras e piruetas

Ouvi dizer a um inteligente publicista, meu amigo, que um revolucionário se define a si mesmo como aquele homem do provérbio alemão que podia saltar sobre a sua própria sombra. O revolucionário é o homem que pode saltar sobre a sua própria sombra. Isto explica aos olhos, se não ao entendimento, e menos ainda ao coração, as estranhas e ridículas piruetas que vemos realizar, puerilmente, a tantos jovens e velhos revolucionários simuladores, que, ao terem de saltar uma sombra tão subtil de si mesmos, a buscam em redor de si, sem encontrá-la, pois não conseguiram sequer vê-la projectar-se no solo. A estes havia que aconselhar, amistosamente, que se querem saltar sobre a sua sombra, comecem por ver se realmente a têm; se essa sombra os segue, arrastando-se a serpentear pelo solo. Porque, na melhor das hipóteses, a perderam, como acontece ao herói do conto de Chamisso.

José Bergamín, em «Las nubes y las sombras», Las ideas liebres, Ediciones Destino, Barcelona, 1998.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O poeta não é poeta só quando canta

O poeta não é poeta só quando canta, mas também quando perde o compasso. Quando o poeta perde o compasso já não pode medir os seus versos. E os versos ficam sem pés com que possam bailar. Não há baile de versos, poeta: o teu silêncio deixou sem cadência e sem ritmo a dança e a canção subtil. E o silêncio era tão profundo, que se via estremecer o pensamento, espada desnuda e ardente, guarda e signo da poesia, ou do Éden.

José Bergamín, em «Arte de temblar», El cohete y la estrella/ La cabeza a pájaros, Ediciones Cátedra, col. Letras Hispánicas, 2.ª ed., Madrid, 1984.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Paradoxo da escolha

Estar disposto a equivocar-se é predispor-se a acertar.

José Bergamín, El cohete y la estrella/ La cabeza a pájaros, Ediciones Cátedra, col. Letras Hispánicas, 2.ª ed., Madrid, 1984.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Buscar

Porque sabem o nome do que busco, crêem que sabem o que busco!

Antonio Porchia, Voces Reunidas, Pre-Textos, Valência, 2006


Só há uma inquietação mais terrível do que a de buscar: a de ter encontrado.

José Bergamín, El cohete y la estrella/ La cabeza a pájaros, Ediciones Cátedra, col. Letras Hispánicas, 2.ª ed., Madrid, 1984.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Paradoxo

Para quem escreves? Porque os que estão longe de ti e te lêem, crêem que não te entendem. E os que estão próximos, e crêem que te entendem, não te lêem.

José Bergamín, em «Las malas verdades de un duendecito hablador», Las ideas liebres, Ediciones Destino, Barcelona, 1998.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Memórias Intactas

para Juan e Belém, visitantes deste blogue

Entrei na livraria com o único propósito de fazer tempo.

Um livro despertou-me a atenção, um álbum sobre Alfonso Sánchez García: Alfonso, o fotógrafo. Na capa, don Ramón María metido na sua personagem. Nas suas páginas, rostos de uma Espanha que me fala.

Toureiros: Juan Belmonte, Manuel Granero – ainda no espanto de ter morrido –, Domingo Ortega. Um enquadramento extraordinário: Joselito espera, sentado, a três passos do touro, que este sucumba; o touro, de pé, espera, paciente, que a vida se lhe esgote; os peões esperam, agrupados à distância, imóveis e atentos; o público, de pé, espera, suspenso do triunfo da morte, o triunfo do toureiro.

«Homenaje a don Nadie», em 1922, greguería ao vivo de Ramón Gómez de la Serna, com Madariaga, Bergamín, Ramón María del Valle-Inclán e outros em volta de um cadeirão vazio. Gómez de la Serna no seu habitat do café del Pombo. Os Machados, desde o início dos anos 20; Antonio, em 1933, à mesa do café de las Salesas, chapéu e bengala, no seu entranhado desalinho de poeta. Unamuno em 1935, com o garbo de quem «A un pueblo de arrieros,/ lechuzos y tahúres y logreros/ dicta lecciones de Caballería», segundo os versos do próprio Machado.

Marañon, Ortega, López de Ayala. Mas também García Lorca e Albertí: a geração de 27 entrando em cena. José António em uniforme hussardo. O corpo dilacerado de Calvo Sotelo desatando a Guerra Civil. Pío Baroja, Buero Vallejo, o compositor Cristóbal Halfter, Cela. As mãos encanecidas de Azorín, mãos de artesão da prosa «sóbria, desferida em pequenas guinadas», encastoada de «recortes de bons autores, pinceladas de paisagens, velhos trastes, pequeninos nadas esmaecidos pelo tempo», como tão bem disse João Maia.

Afinal, em vez de fazer tempo, encontrei um tempo desfeito.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Inocência e ignorância

O Poeta é sempre ignorante da sua inocência: nunca é inocente da sua ignorância; senão não é poeta.

José Bergamín, em «Mariposas muertas», Las ideas liebres, Ediciones Destino, Barcelona, 1998.