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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (45)

Sê casto na voz,
loquaz no instinto.
Modesto na imodéstia.
Púdico na lúbrica
sinceridade
das membranas
e outros tecidos elásticos.
Destro e veraz no manuseio
de órgãos delicados
e saberes subtis.
E guarda o fermento
apenas para o pão.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (44)

Se nada é condicional
e tudo for duração aparente,
se o único futuro for
a enunciação do presente,
como te poderiam
ajudar estas frases
serradas, encerradas
no próprio recorte da serra?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (43)

Vai, ascende, voa
a rasar as alturas
do teu ideal de abismo,
ou vem,
desce, mergulha
nas águas escuras
do realismo.
Antes isso
que um desossado desassossego 
de fantasmas obedientes.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (42)

A ciência tem limites?
Inspira, pesa primeiro
o argumento determinante.
A paciência tem limites?
Suspira, antes
da resposta terminante.
A decência tem limites?
Essa resposta, deves 
tê-la na ponta da língua.

sábado, 5 de novembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (41)

És tudo o que foste
e tudo o que ainda serás.

O teu rosto muda
de encontro ao tempo,
mas não muda tanto
como o próprio tempo,
que tem mil rostos
e nenhum.

Não adianta
adiantares o passo:
a corda é curta
e terso o som
desse fado.

És tudo o que foste
e o que já não serás,
até ao desfazer
do laço,
até ao desmanchar
da casa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (40)

Bate fronteiro
e sem misericórdia,
o tempo voraz,
e, ao varar-te,
por misericórdia
imediatamente
te esquece.
Sorrateiro, sorrindo
como quem mente,
dá-lhe tempo;
verás como
ainda te apressas
por ninharias
de que te hás-
-de lembrar,
para nada.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (39)

Se em algum tranco
perderes o astro
e escorregares por um
barranco lírico,
não percas também
o lustro, nem te caiam
os parentes na lama:
podes sempre dizer
que estás
no ramo do onírico
e do louro em rama.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (38)

A gente abrupta
é rude
e desabrida;
mas, fica ciente,
reinante
é a hipocrisia:
um ar sério
nada garante
e, por si,
a simpatia
não é critério.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (37)

É preciso têmpera
mental
para não ceder
ao gosto cediço
do moderno brutal,
de insosso recheio
e contorno tremendo
.
Mas resiste, se fores
capaz, mesmo sabendo
que não ganharás
nada com isso.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (36)

Não embarques
numa empáfia de
muitos feitos.
Sê fiel ao vocabulário
da tua dor
como se ela fosse
uma sublime ciência.
Se não és imperador,
serás serventuário;
procura sê-lo
sem muitos defeitos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (35)

As aparências
não te iludem,
afirmas?
Desilude-te.
Sonda o espelho
e vê
se te revela
o que lhe ocultas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (34)

Se lanças
um arpão de intenções
e atinges o coração
do teu próprio desconsolo,
sangra em silêncio.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (33)

Refreia a euforia
tecnológica e recoloca
as coisas no lugar devido:
o amor será sempre
profundamente analógico,
as efusões digitais
são quase tão velhas
como o mundo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (32)

Deixa a claridade
instalar-se por inteiro
nas superfícies
e as sombras
tomarem conta
de todos os recessos.
Não tenhas pressa
de ter razão:
quando a tiveres
ninguém to dirá,
ninguém ta dará.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (31)

O vício deforma.
O vício de forma fere.
De onde se infere
ser a lei menos
plástica que a moral.
Convém teres isto
em conta.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (30)

Exauridos os recursos,
estancadas as nascentes,
esgotada a exuberância
industriosa
e a insolvente enxúndia
dos estilos radioso
e lastimoso,
exausto o vezo do verso
à experiência, hoje vendido
ao peso,
acumulado o crédito mal
parado no exercício
de uma língua exangue,
duvidoso organismo agora
ortograficamente modificado,
à míngua de alternativas
só te resta investir
numa pequena poética
biológica e sustentável.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (29)

Não temas juízos morais,
mas foge dos juízes morais.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (28)

Não graves na pele
caprichos indeléveis,
nem traces na mente
desígnios indizíveis:
inscreve no íntimo
um pequeno e claro norte
e navega para o extremo
oposto ao da morte.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (27)

Não te enganes:
o que contemplas
de pé, à beira
do mar, com ar
sisudo e braços
cruzados,
é o naufrágio
do infinito
sobre a linha
do horizonte.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (26)

Se a memória
te atraiçoa,
trapaceia
quanto puderes,
e não esqueças:
ela sabe
mais que tu
sobre o teu passado.