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sábado, 3 de dezembro de 2011

Nenhum editor

25 de Junho. Encontro na rua um velho condiscípulo do liceu e ficamos a conversar algum tempo. Leitor compulsivo e actualizado, ficou surpreendido quando lhe disse que a minha biblioteca não é desmedida como a dele. De tanto ler não lhe sobrou tempo para escrever. E alguns textos juvenis mostravam que tinha vocação para isso.
É das raras pessoas que se interessa pelo meu diário e quer saber quando publico outro volume. Respondo que nenhum editor está interessado nas minhas insónias e numa literatura que não se vende. As minhas insónias, além disso, não são, obviamente, as de Cioran, de que nasceram livros que parecem caprichos ou monstros de Goya.

João Bigotte Chorão, «Diário - 2010», em Revisiones, Revista de crítica cultural, n.º 6, Servicio de Publicaciones de la Universidad de Navarra, Pamplona, 2010.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Recalcitrante, original, livre

Não sendo isto nem aquilo, e sendo tudo ao mesmo tempo, ele apresenta até nessa complexidade de natureza uma atitude recalcitrante e original, livre como é toda a solidão.

Nicolas Cavaillès (que, com Aurélien Demars, preparou a edição «Pléiade» das obras de Cioran, que acaba de ser publicada).

domingo, 22 de maio de 2011

Os critérios

A profundidade da vida interior não se mede segundo critérios quantitativos de uma informação rica em extensão, mas segundo o critério qualitativo da vivência intensa dos problemas.
[Ver em relação com
isto.]

Cioran, «Une forme de la vie intérieur», em Solitude et destin, trad. Alain Paruit, col. Arcades, Gallimard, 2004.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Le sentiment que tout va mal

Durante muito tempo chamou-se, paradoxalmente, esclarecidos aos espíritos afeitos às ilusões, aqueles que, obnubilados pelo entusiasmo, acreditavam no homem, na sua capacidade de triunfar sobre o mal, dentro e fora de si. A civilização moderna – tocamos aqui na raiz do seu sucesso e do seu fracasso – foi criada pelos detractores do Pecado original, pelos discípulos de Rousseau, por todos aqueles que recusaram admitir que o homem está viciado na sua essência e que é amaldiçoado desde sempre, quaisquer que sejam as condições exteriores, sociais ou outras, em que vive. O autor do Génesis e o do Apocalipse perceberam melhor que os apóstolos modernos da ciência a miséria sem remédio da nossa sorte, e mostraram-nos que conhecer é ceder a uma tentação perigosa, que não é impunemente que nos apaixonamos pelo saber, e que a árvore da ciência é o antípoda da árvore da vida. A curiosidade do nosso primeiro antepassado foi-nos fatal. O homem começou por uma transgressão, por uma escolha perigosa, pois fora claramente prevenido, por Deus, do risco que corria.


Excerto de um inédito (1982) de Cioran publicado no Magazine Littéraire dedicado ao centenário do nascimento do autor, Maio de 2011.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

As condições da humildade

Enquanto não se tiver tocado as extremidades da humilhação e da vergonha, não se tem o direito de abordar os grandes problemas.

Cioran, Cahiers 1957-1972, Gallimard, 1997.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cioran

Estou infinitamente mais próximo da música e da poesia do que da sabedoria ou da religião. É que, para mim, o absoluto é uma questão de disposição. Exige continuidade, que é precisamente o que me falta.
Sou demasiadamente melancólico para conseguir providenciar o esforço necessário ao mínimo aperfeiçoamento interior. Não posso ser senão o que sou. Como Deus...

Cioran, Cahiers 1957-1972, Gallimard, 1997.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Escrever

Escrever é um vício de que nos podemos cansar. Na verdade, escrevo cada vez menos e acabarei sem dúvida por deixar de escrever de todo, por não encontrar o menor encanto neste combate com os outros e comigo mesmo.
Quando se aborda um tema, qualquer que ele seja, experimenta-se um sentimento de plenitude, acompanhado de um laivo de arrogância. Fenómeno mais estranho ainda: esta sensação de superioridade quando se evoca uma figura que admiramos. A meio de uma frase, como que facilidade nos cremos o centro do mundo! Escrever e venerar não ficam bem em conjunto: quer queiramos quer não, falar de Deus é olhá-lo de alto. A escrita é a vingança da criatura e a sua resposta a uma Criação atamancada.

Cioran, «Confession en raccourci», em Exercises d'admiration, Oeuvres, Quarto, Gallimard, 1995.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Destino

Por que razão um tipo é bom poeta e outro não? É porque o outro é mais subtil? Porque é que a sua poesia não resiste? Porque o que dá origem aos actos, aquilo que é profundo, não passa; é brilhante, é notável, é poético, mas sem mais. Por que razão um outro com menos talento é melhor poeta? Por que razão um tipo é um génio, isto é, tem mais do que talento? Porque consegue transpor qualquer coisa que nos escapa, e que escapa a si próprio.

(de uma entrevista com Michael Jakob, 1988)

Cioran, «Glossaire» em Oeuvres, Quarto, Gallimard, 1995.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sorriso e melancolia

Compreende-se, desde logo, por que razão a melancolia é temperada pelo sorriso, em Itália, ao passo que é agravada por uma tensão dolorosa no Norte da Europa. Se A Melancolia de Dürer é desprovida da mais pequena ironia, que seria uma negatividade infinita, é porque a realidade opõe ao homem uma resistência demasiado grande para que ele possa, por sua vez, opor-lhe o sorriso da sua própria superioridade. Isso explica a inclinação do Renascimento italiano para a vida e a do Renascimento do Norte para a morte.

«"La Mélancolie" de Dürer» (1932), em Cioran, Solitude et destin, trad. Alain Paruit, col. Arcades, Gallimard, 2004.

terça-feira, 16 de março de 2010

Vingança

A vingança — o único problema moral. A vingança é um alívio que não nos eleva.
Quer nos vinguemos, quer não nos vinguemos, não somos felizes. Talvez valha mais escolher o infortúnio de não nos vingarmos.

Cioran, Cahiers 1957-1972, Gallimard, 1997.

A tendência para a vingança depois do agravo sofrido é perfeitamente justificável. Se conseguirmos, porém, substituir o princípio da justiça pelo do prazer, é preferível não a levar a cabo. Uma vez concebida a vingança, até aos detalhes mais ínfimos, dá mais prazer suspender a sua execução e começar a gozar os privilégios do desprezo.

Rafael Argullol, El cazador de instantes. Cuaderno de travesía (1990-1995), El Acantilado, Barcelona, 2007.