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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Imprudência gramatical - 2

Em português, como se sabe, substituímos o futuro pelo presente. Ninguém diz «Para o ano tirarei férias em Agosto» ou «Amanhã irei ao cinema», mas sim «Para o ano tiro férias em Agosto» ou «Amanhã vou ao cinema». Ninguém usa o futuro, sobretudo na primeira pessoa, e suponho que literariamente também deva ser cada vez mais raro. Há muito que os linguistas e os gramáticos deram por isso, tal como deram pela substituição sistemática do condicional pelo pretérito imperfeito. Mas, se Karl Kraus tinha razão e a decadência da linguagem é o primeiro sinal de todas as outras decadências, então esta anulação do futuro no quotidiano pode ter um significado simbólico e podemos até imaginar que ela reflectiu e anunciou o caminho que nos trouxe ao lugar onde chegámos. É paradoxal que o Futuro constitua um dos pilares de todo o discurso político? Talvez isso até explique alguma coisa. Buzzati sublinha a maior ductilidade da fórmula inglesa. Mas também nós achámos o modo de mitigar a assertividade do presente: «Para o ano estou a pensar tirar férias em Agosto» ou «Amanhã estou a pensar ir ao cinema». É verdade que aí se expressa uma intenção, mas a vontade, no banho-maria da incerteza, dilui-se.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A importância das cadeiras livres

Não basta, quando se precisa de estar só, que nos sentemos sozinhos a uma mesa. É também necessário que haja em volta cadeiras vazias. Se o empregado vem buscar uma dessas cadeiras em que ninguém está sentado, sinto um vazio; e a minha natureza social acorda. Não posso viver sem cadeiras livres.

Karl Kraus, Pro Domo et Mundo (1912), trad. Roger Lewinter, Ed. Gérard Lebovici, Paris, 1985.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tempo

Escrever um romance pode ser um prazer. Já é mais difícil viver um romance. Mas ler um romance, faço todos os possíveis para o evitar. Mas onde é que vou buscar, então, todo esse tempo para não ler tantas coisas?

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955)/ Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre a natureza dos projectos

O projecto do jovem Jean Paul era: «Escrever livros, para poder comprar livros». O projecto dos nossos jovens escritores é receberem livros grátis, para poderem escrever livros.

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955)/ Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Das culturas

Há diferentes culturas. Uma vive nos víveres. A outra liga o espírito aos víveres. A terceira separa o espírito dos víveres. A quarta vive no espírito – mas não na Europa.

Karl Kraus, «1915», Nachts. Tradução francesa: La nuit venue, trad. Roger Lewinter, Éditions Gérard Lebovici, Paris, 1986.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Aritmética

A soma das ideias de uma dissertação literária será o resultado de uma mutiplicação, não de uma adição.

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955); Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Linguagem e decadência

Karl Kraus acreditava que é pela linguagem que a realidade resvala. Que a decadência começa na decadência da linguagem. A decadência da linguagem, a sua, digamos, impropriedade, é também a decadência do entendimento. E a decadência do entendimento, nas suas diversas manifestações, impregna a linguagem de um poder desintegrador dotado de incomparáveis capacidades virais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Escrita, escritores

Há duas espécies de escritores. Os que o são e os que o não são. Nos primeiros, o fundo e a forma formam um conjunto, como a alma e o corpo; entre os segundos, o fundo e a forma conjugam-se como o corpo e o hábito.

*
Etapas de quem escreve: ao princípio, não se está habituado e, por essa razão, tudo corre sobre rodas. Mas, de seguida, torna-se cada vez mais difícil; e quando verdadeiramente se ganha mão, então há mais de uma frase que não se consegue terminar.
*
Porque escreve aquele determinado tipo? Porque não tem carácter suficiente para não escrever.

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955)/ Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Conjectura

A língua tacteia, como o amor, na obscuridade do mundo, à procura de uma imagem inicial, perdida. Não se faz um poema, conjectura-se.

Karl Kraus, La nuit venue, trad. Roger Lewinter, Éditions Gérard Lebovici, Paris, 1986.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A modéstia do imbecil

O imbecil, que não consegue passar por nenhum enigma do universo sem observar, desculpando-se, que é a sua humilde opinião, arrecada os louvores da modéstia. O artista que pasta os seus pensamentos no ralo de uma sarjeta, é presunçoso.

Karl Kraus, Pro Domo et Mundo (1912), trad. Roger Lewinter, Ed. Gérard Lebovici, Paris, 1985.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Mania das grandezas

A mania das grandezas não é o tomar-se por mais do que não se é, é o tomar-se pelo que se é.

Karl Kraus, Pro Domo et Mundo (1912), trad. Roger Lewinter, Ed. Gérard Lebovici, Paris, 1985.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Erotismo e analfabetismo

Também na linguagem do erotismo há metáforas. O analfabeto chama-lhes perversões. Ele abomina o poeta.

Karl Kraus, Pro Domo et Mundo (1912), trad. Roger Lewinter, Ed. Gérard Lebovici, Paris, 1985.