Mostrar mensagens com a etiqueta Gerardo Mello Mourão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gerardo Mello Mourão. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Da repetição

A intertemporalidade e a interespacialidade são a coisa da poesia. O poeta é o taumaturgo, o diábolos, o saltimbanco que atravessa as paredes e os séculos. Não é o fingidor, Fernando, pois só finge quando finge que está fingindo. Os outros, os críticos acadêmicos, vivem no estrito mundo tridimensional. Não conhecem as surpresas da quarta, da quinta, da milésima dimensão das coisas, dos lugares e das pessoas. Do poliedro universal. Etc. «Répétez, répétez sans cesse, le nouveau viendra au galop.» Mas pergunta Kierkegaard – la répétition, est-elle possible? – Sim, mein Herr, mas só para o poeta. Acho que esta é a conclusão, senão explícita, de todo o modo evidente, no Tratado da Repetição. Só há uma forma boa de gerar um ser novo no ventre de uma fêmea: repetir o ato imemorial de Adão em cima de Eva, com um movimento entre a cintura e as ancas.  O resto é inseminação artificial. A repetição gera o novo. Etc.» (Em carta antiga a J. F.)

Gerardo Mello Mourão, «Epitáfios», Invenção do Mar - Carmen Saeculare, Record, Rio de Janeiro, 1997.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Um Poeta

Hás de testemunhar ruínas
antes de existirem as ruínas:
engenheiro de troços e destroços
empreitaras destruições –
desmoronaste muros.

Profeta – riscas riscaste riscarás
roteiros de pássaros no ar – e riscas
calendários passados e futuros – riscas
a arquitetura dos escombros
antes durante e depois deles
os tempos ouvem ouviram e ouvirão
esses passos de pedra
que pisam pisaram pisarão
rosa, lírio, jasmim e às vezes
ovelhas imoladas.

Maios, janeiros, setembros e outros meses
meses azuis e meses pluviais
te saúdam à beira das falésias à beira-mar à beira-rio
à beira-abismos à beira-séculos:
piloto do naufrágio
governador dos tempos tretarca dos milênios
arquivista – tabelião das eras
só os dias, poeta, e as noites, te conhecem
sabem teu nome
e nenhum outro nome.

Gerardo Mello Mourão, Cânon & fuga, Editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 1999.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Memórias Intactas

Fui apresentado a «As gémeas Lea e Maria», no nono andar da Rua Tonelero, em Copacabana. Geminadas em seu canapé, naquele terraço aberto sobre o tempo e o sonho, olhavam-me num silêncio embaraçoso. Ao estender-lhes, invisíveis, minhas mãos, repetia nesse gesto sem voz a súplica de Cecília Meireles: «Levai-me a esse reino do rei Guignard.» Reencontrei-as na grande exposição do Museu Nacional de Belas Artes, que acabava de inaugurar. Aí, em cada paisagem de Ouro Preto, navegando entre brumas e templos, descobri o recatado deslumbramento do reino visionário de Guignard, poeta cujo amor da pintura foi capaz de se enobrecer até em peças de mobiliário lírico. Pude ver — por uma vez reunidas — as estações da Via Sacra, e delas guardo profunda e prolongada impressão. Ah, que saudades do reino de Guignard!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Leitores virtuosos

O texto do livro dos olhos do gato está escrito em caracteres soltos, e sua unidade só consegue ser lida quando o sopro da vontade criadora do leitor move e ordena cada um deles para a composição sintática da escritura. Mais ou menos como na partitura da sonata: todas as notas da escala musical estão residentes nas cordas da viola sábia e do piano virtuoso, ou nos furos da flauta eólica e no fole do órgão tempestuoso. Mas só os dedos ou o pulmão do artista sabem ensinar aos instrumentos virtuais a arrumação compósita dos sons para o ritmo e a melodia. Não é diferente o labor elementar da pintura, feita de fragmentos ordenados e ajuntados de formas e cores, como a poesia feita de fragmentos de sílabas e palavras, e a música de fragmentos de sons. A obra inteira de um poeta, de um músico, de um pintor é um échantillon, um patchwork de fragmentos. Por isto, os poetas, os músicos e os pintores se repetem, não ad nauseam, mas ad orgasmum — até o orgasmo — atravessando a espessura dos tempos, vestíbulo da eternidade, para que se veja o carmen pulcherrimum da visão platônica dos olhos de gato de Santo Agostinho — a beleza da ordem dos séculos.

Gerardo Mello Mourão, Os Olhos do Gato & O Retoque Inacabado, Rio de Janeiro, 2002.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Indústria livreira

O que parece certo é que não sabemos quase nada dos antigos depósitos de livros, egípcios ou assírios. Mas é fora de dúvida que havia um livro mágico na grande Biblioteca de Alexandria, projetada por Ptolomeu Iº, com a ajuda do sábio Demétrio de Falera, fundada, afinal por Ptolomeu IIº. Foi ele que tomou a providência de proibir a exportação do papiro egípcio, para proteger a indústria livreira do país e sua biblioteca, e impedir que o rei de Pérgamo levasse a cabo o projecto de fazer em sua cidade um museu de livros maior que o de Alexandria. Graças a esta competição, os de Pérgamo chegaram à invenção do pergaminho, folhas para escrita de peles de ovelha de Pérgamo. Mas isto é outra história.

Gerardo Mello Mourão, Os Olhos do Gato & O Retoque Inacabado, Rio de Janeiro, 2002.


NOTA: O livro acima mencionado, além de constituir um singular in memoriam do poeta panamiano Edi Simons, e nessa medida um excepcional preito de amizade e admiração, é um exercício fabuloso, que tem o merecido estatuto de «livro de culto» de quantos tiveram o privilégio de o ter lido. Sobre o poeta, seu autor, espero vir a falar dele aqui em muitas outras ocasiões.