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terça-feira, 28 de junho de 2011

Memórias Intactas (2 de 7)

Chega-se a uma idade em que o casual e o deliberado se integram e se organizam no que somos, e desenham um destino descoberto e desdobrado como uma rota traçada pela nossa própria mão sobre um mapa. A idade de saber o que só a nós interessa saber. A idade de andar por estradas secundárias. De não esperar já ter razão.
A idade de ignorar aonde se vai, sabendo que iremos dar onde queremos ir. A idade de os livros comunicarem entre si. A idade em que um autor improvável nos revela outro autor que julgávamos conhecer. A idade de tudo o que sabemos que somos capazes de saber: a idade do sentido.
Um saber fundo de silêncio, de invisível travessia de palavras e paisagens. Percorrer com Liszt o Vale de Oberman (mas que vale, o abismal de Horowitz, menos íngreme em Arrau, mais meditativo em Brendel?) e ouvir o que só Turner poderia ter pintado — a idade de saber o que nunca saberemos. Sentir o sussurro sanguíneo do sobressalto no reconhecimento da grandeza estóica de Pedro Laín Entralgo quando escreve em homenagem a Luís Rosales que a dor, ou a memória da dor, exige que se viva à altura do coração — do coração limpo dos poetas que bate acima das diferenças de entendimento sobre a verdade e o bem. No vinho, perceber o travo da terra vermelha e rasa avistada na viagem, e saber que há uma relação entre uma coisa e outra. [continua]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Memórias Intactas

Ao almoço, na Tate velha, ainda fulminado pela luz irradiante e intensa dos quadros de Turner, uma salada de cores gregas: alcachofras, tomate seco, queijo feta, azeitonas pretas. Há quase sempre, na pintura de Turner, um conteúdo dramático em que a luz — melhor seria dizer as cores da luz — submete todo o elenco das restantes dramatis personae para triunfar ela só, sobre tudo e todos. A dimensão figurativa é progressivamente perturbada pela girândola do tremendo e do sublime até quase se desvanecer, para se tornar apenas pintura de uma visão ou, porque não dizê-lo, apenas pintura. Ocorre-me a relação inesperada com a rota da pintura de Rothko: também na sua obra a mancha e a cor triunfaram sobre a pura representação, tornando-se representação pura de conteúdos, não já romanticamente sublimes nem tremendos, mas puramente dramáticos, desnudadamente trágicos.