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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Memórias Intactas

Meditei durante anos, de fora, a pequena casa de um piso onde Cesário terá morrido, ao Paço do Lumiar, no limiar da cidade, fronteira da febre. Quintas e quintais, o ar desflorido de Julho, o calor macio das sombras. O largo. O desplante teimoso da capela. Casa adentro: quartos escuros, móveis simples, passos leves, sustido tinir de louças, perfumes de sabão e de legumes, melancolia, fruta fresca, cesário verde. Campos em farrapos amainando, desolados e chãos, mal deixam adivinhar as maquinações de um futuro delírio fabril e triunfal. Depois, despenhado de altos andaimes, o sonho de vidro transparente que parecia poder conter a dor humana e talvez tocar o céu, tombou, longitudinal e sem glória, alongando além de si a cidade, desaguando em ocidental desencanto por tristes cafés de subúrbio.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Memórias Intactas

Durante anos meditei, do lado de fora, a pequena casa de um piso onde Cesário terá morrido, ao Paço do Lumiar, no limiar da cidade, fronteira da febre. Quintas e quintais, o ar desflorido de Julho, o calor macio das sombras. O largo. O desplante teimoso da capela. Casa adentro: quartos escuros, móveis simples, passos leves, sustido tinir de louças, perfumes de sabão e de legumes, melancolia, fruta fresca, cesário verde. Campos em farrapos amainando, desolados e chãos, mal deixam adivinhar as maquinações de um futuro delírio fabril e triunfal. Depois, despenhado de altos andaimes, o sonho de vidro transparente que parecia poder conter a dor humana e talvez tocar o céu, tombou, longitudinal e sem glória, alongando além de si a cidade, desaguando em ocidental desencanto por tristes cafés de subúrbio.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cultura crítica

Mão amiga fez-me chegar, a propósito de Cesário Verde, um excerto de uma obra recente de história local, onde, entre várias outras coisas muito interessantes, é parcialmente reproduzida a carta de Cesário ao conde de Monsaraz (António Macedo Papança), datada de 29 de Agosto de 1880, na qual ele diz:
«Uma poesia minha recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação! Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!»
A poesia a que Cesário se refere é «O Sentimento dum Ocidental», publicada em Portugal a Camões, publicação extraordinária do Jornal de Viagens, no Porto, em 10 de Junho de 1880, e um dos marcos fundamentais da história da literatura portuguesa.