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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não vai de tempos estranhos, que isto é já de antigamente

Valha-me Deus, tal verdade,
tal honra, tal discrição,
tal gosto, tanta amizade
vedes vós lá na cidade
que queirais dela quinhão?

Eu não sei como isso é;
vivo cá do mundo fora,
e, inda aqui, ouve home e vê
tanta infinda cousa que
mais fora melhor lhe fora.

Não vai de tempos estranhos,
que isto é já de antigamente:
grandes perdas, curtos ganhos;
e sempre os riscos tamanhos
como o tamanho da gente.

Que o filho do carreteiro
se aventure ao fado imigo,
seja embora aventureiro;
porque está só no terreiro,
baixo ou alto o seu perigo.

Não é desprezar ninguém,
mas é dizer que a Fortuna
certas medidas lá tem,
que as pessoas lhes convém,
com que abate e com que enfuna.

O Rei como Rei padece
e o pobre, se acaso alcança,
por seu próprio teor crece;
logo ninguém se parece
na perda nem na bonança.

E como em nós (ainda mal)
mais que o bem, o mal é certo,
nunca o bem nos sai igual;
o mal sempre tal por tal:
vede que triste concerto!

Excerto do poema «A Dom João de Almeida entrando em religião um seu filho», D. Francisco Manuel de Melo - Poesias Escolhidas, prefácio, selecção e notas de José V. de Pina Martins, col. Textos Clássicos, Editorial Verbo, 1969.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

José V. de Pina Martins

Morreu o Prof. Pina Martins. Era um homem grave e meticuloso. As notícias sobre a sua morte são escassas e breves, como seria de prever. Não garante «seguidores», não alimenta escaparates, não foi um modernaço. Cultivou os clássicos, os «seus» clássicos, como poucos. Como poucos são, hoje, os que conseguem perceber, perceber mesmo, a sua importância, que está muito para além das pequenas notícias de circunstância que garantem, recitando, que foi muito importante. Em tempos, uma publicação a que estive ligado atribuiu-lhe destaque e dedicou-lhe um texto de homenagem. Uma breve notícia curricular pode ser lida neste lugar, hoje abandonado.

José V. de Pina Martins (1920-2010)