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terça-feira, 20 de julho de 2010

O disco do gramofone

Deutsche Grammophonaktiengesellschaft.
C2-42531. A Truta, de Schubert.

A corrente da montanha, borbulhando, límpida como cristal, entre penedos e pinheiros, metamorfoseou-se em música. A truta, um encanto de predador, cinzenta clara com manchas vermelhas, espreitando, esperando, flutuando, disparando em frente, para baixo, para cima, desaparecendo. Magnificente sede de sangue!
O acompanhamento do piano é doce, suave, com a monotonia da corrente gorgolejante, verde-escura, profunda. A vida real deixa de ser necessária. Sentimos o conto de fadas da natureza!
Todos os dias, pela tarde, em Gmunden, na loja do relojoeiro, uma senhora fazia com que tocassem duas ou três vezes o disco C2-42531 no gramofone. Ela sentava-se num tamborete, eu ficava junto do aparelho.
Nunca dissemos nada um ao outro.
De certo momento em diante, ela adiava o concerto até eu aparecer.
Um dia, pagou para o tocarem três vezes, se bem que estivesse prestes a sair. Eu paguei para o tocarem uma quarta vez. Ela esperou à porta, ouvindo-o até ao fim.
Disco de gramofone C2-42531, Schubert, A Truta.
Um dia, deixou de aparecer.
A canção sobreviveu como se fosse um presente dela.
Veio o Outono e o chão da esplanada cobriu-se de leves folhas amarelas espalhadas.
Então, na loja do relojoeiro, guardaram o gramofone numa prateleira, uma vez que já não era rentável mantê-lo.

Peter Altenberg, Telegrams of the Soul. Selected Prose of Peter Altenberg, tradução de Peter Wortsman, Archipelago Books, Nova Iorque, 2005.

sábado, 3 de abril de 2010

O Leitor

«As coisas que Altenberg escreve, de algum modo já as sabemos!»
Porque ele escreve de uma forma que dá a impressão de que sempre as soubemos.
Mas é apenas por ele que sabemos que, de algum modo, sempre as soubemos!
Ficamos embaraçados perante nós próprios por tê-lo descortinado só agora, graças a esse excêntrico louco Altenberg!
Só existe uma saída:
«Para clamar que já se pensara aquilo, que já se sabia, há muito tempo, temos de dizer tudo pela boca fora?! Que Altenberg não regula bem, que tem a necessidade de esclarecer!»
Tenho mesmo?! Por mim tudo bem se os outros andam aos apalpões e encalham nas suas próprias tontices.

Peter Altenberg, Telegrams of the Soul. Selected Prose of Peter Altenberg, tradução de Peter Wortsman, Archipelago Books, Nova Iorque, 2005.

terça-feira, 30 de março de 2010

Amor

Ele amava-a desesperadamente e em vão. Ama-se sempre desesperadamente quando é em vão! Um dia, ela sentiu-se muito, muito doente. Então disse-lhe:
— Tenho pena de ti. Quero que me vejas mais nua que nua!
E desenrolou uma grande folha de papel onde tinha sido impresso um raio-x.
— Oh, que esqueleto tão querido!, disse ele, deliciado.
— Mas, peço-te um grande favor, não vás mostrar isto ao Sr...; esse prazer, pelo menos, não quero dar àquele cão!

Peter Altenberg, Telegrams of the Soul. Selected Prose of Peter Altenberg, tradução de Peter Wortsman, Archipelago Books, Nova Iorque, 2005.