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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O nexo e o valor

O domínio do «contemporâneo», palavra angulosa repetida adjectivamente como valor substantivo, não me parece valer por si mesmo, sobretudo se aparecer como mera fórmula ritual do culto da novidade, do «emergente». Resume, afinal, todo um dispositivo de legitimação, e significa, no fundo, que a arte destes tempos multiplica novas ordens estéticas, exclusivas, que procuram estabelecer, elas próprias, os termos por que devem ser vistas ou avaliadas. Os artistas mais pressurosamente «contemporâneos» delimitam um espaço e colocam-se no centro dele, onde as instâncias «contemporâneas» os possam ver.
De tudo isto, retenho apenas, para uso pessoal, que o artista contemporâneo enfrenta ou afronta as possibilidades da continuação da arte, que esta precisa de indagar e prosseguir caminhos de continuar a ser arte, radicalmente radicada numa individualidade artística, qualquer que seja o suporte material que utilize, qualquer que seja mesmo o seu grau de materialidade.
Do meu ponto de vista, a individualidade artística distingue-se pela consistência estética das obras e pela personalidade artística que elas, voluntariamente ou não, revelam — cultura, memória, inteligência, densidade, gosto… Alguma coisa mais do que a mera afirmação ou a pura intenção, nexo talvez necessário, mas não valor suficiente.
(excerto)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Segredo insanável

No fundo negro de um vaso grego, o largo gesto desenhado do atleta semideus é todo um capítulo da história da arte. Mas, entranhado no vazio do vaso, subsiste o perfume de um segredo insanável que mal conhecemos – o amor e a dor, a morte e o medo.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A militância da compreensão

Resisto a quem se resigna e se reduz à História, onde tudo encontra um lugar e uma relevância relativa. Conhecer não é aderir. Compreender não é aceitar. Compreender o significado, as razões e a justificação de um movimento ou de uma personalidade artística não implica adesão pessoal e estética. O gosto forma-se na escola das distinções. A militância da compreensão, sobretudo da que parece solicitar um reconhecimento, mas também da que pretende colocar-se a coberto de uma suposta neutralidade objectiva, muitas vezes no pânico parolo de passar por ignorante, dificulta os deslumbramentos particulares.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Arte

A arte tem sempre qualquer coisa de irredutível a uma explicação, uma resistência ao desnudamento absoluto. É esse elemento resiliente, e não outro qualquer, só mobilizado por inarticulável entendimento, que a torna a actividade humana mais próxima do sagrado.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Perguntas, sabendo as respostas

O homem é o homem e a sua sombra.
Que é o homem sem o lampejo do trágico, sem o lastro da lucidez?
E que é a arte, sem mágoa e sem mácula?