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terça-feira, 13 de março de 2012

Garrett leitor (e tradutor) de Sterne

«Toda a minha vida» – diz ele [Sterne] – «tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre... por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez».

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1843)

«...having been in love, with one princess or other, almost all my life, and I hope I shall go on till I die, being firmly persuaded, that if I ever do a mean action, it must be in some interval betwixt one passion and another: whilst this interregnum lasts, I always perceive my heart locked up -- I can scarce find in it to give Misery a six-pence; and therefore I always get out of it as fast as I can, and the moment I am rekindled, I am all generosity and good-will again;...»

Laurence Sterne, A Sentimental Journey through France and Italy by Mr. Yorick (1768)

Ver texto completo aqui.

sábado, 3 de março de 2012

Memórias Intactas

O texto destas Memórias Intactas está aqui.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Garrett e o Romanceiro: (quase) epílogo da história de uma descoberta

Foi ontem apresentada, na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Nova de Lisboa, uma tese de doutoramento sobre «as fontes do Romanceiro de Almeida Garrett», que abrange já o conhecimento e o estudo de uma colecção inédita de romances, cuja descoberta foi feita em 2004 por Cristina Futscher Pereira. Tive o privilégio e o imenso gosto de partilhar o entusiasmo da Cristina e de ajudar, na medida do possível, a vencer a indiferença e os obstáculos que marcaram as primeiras tentativas de valorizar a colecção recém-descoberta. A Cristina não viveu o tempo suficiente para assistir ao reconhecimento da «sua» colecção. Mas a persistência, discreta, mas determinada, de sua irmã, Vera, tornou, agora, finalmente, possível a realização do sonho dos últimos anos de vida da Cristina. Falta apenas ver o Romanceiro publicado integralmente. A história e as referências essenciais poderão ser encontradas a partir do Retrovisor, de Vera Futscher Pereira.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Patos e Cisnes

Bulhão Pato conta num dos seus escritos memorialísticos que Garrett, amigo estimado, antes de contar uma história picante, dizia em jeito de introdução «Vamos arrepiar a pena ao Patinho». Por outro lado, o gravíssimo Herculano, em cuja casa da Ajuda Bulhão Pato viveu, dirige-se-lhe por carta, tratando-o, divertida e carinhosamente, por «Homem-Pato».
Bulhão Pato tinha, e expressa-o constantemente nas memórias, uma notável admiração literária e intelectual pelos seus amigos, reconhecendo-lhes um estatuto que ele sabia não ter. Mas esse reconhecimento não o diminuía; pelo contrário, elevava-o. Como aliás, não o diminuíam as brincadeiras com o seu nome: ficamos até com a impressão de que isso era um sinal de pertença.
Como poeta, o brilho de Bulhão Pato não foi fulgurante, e a insinuação de que o Alencar, de Os Maias, era a sua caricatura fez com que a referência à sua figura fosse quase sempre precedida de um sorriso de desdém. Ainda assim, antigamente, as selectas literárias incluiam um outro poema de Bulhão Pato. E porque não, embora o seu legado mais importante esteja nos retratos de época e de figuras que são as suas memórias?
Em 2012 passará o centenário da morte de Bulhão Pato e passará tão silenciosamente como outros, até mais relevantes. Mas o que é mais encanitante é vermos que os Patos de hoje passam por ser cisnes, com uma altivez que é sobretudo feita de auto-admiração, e por isso sem nenhuma da capacidade de Pato de aceitar a ironia sobre si próprio.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Gostos e desgostos/ ainda as Viagens na Minha Terra

Nenhum outro texto de Garrett anuncia tanto as Viagens como «A Notícia do Auctor d’Esta Obra» que antecede a Lírica de João Mínimo, datada, desde a 2.ª edição, de 15 de Dezembro de 1828, em Birmingham, Warwickshire, Inglaterra.
Várias afinidades poderiam ser apontadas, das técnicas narrativas aos objectos da crítica, nesta espécie de breve ensaio ou antecipação do que viriam a ser as Viagens na Minha Terra, ainda que nesta ocasião a viagem seja da Praça da Figueira em direcção a Sintra, ficando-se muito embora por Odivelas, no «antiquissimo e celebrado convento (...) em cuja egreja jaz o grande rei D. Diniz, e em cujo dormitório tantas vezes jazeu outro rei – que não sei se foi grande ou pequeno – D. João V, de freiratica memoria.»
A verdade é que já em 1828, Garrett experimentava fórmulas que viria a usar na obra de 1843: «As digressões matam-me: é a minha terrível e imperdivel manha. ­– Onde iamos nós? – No caminho de Odivellas: é verdade.»
Significa isto, talvez, que a concepção narrativa a que as Viagens obedecem estava já em formação e que, nos 15 anos que medeiam entre uma e outra, ela se foi consolidando.
A ideia ou concepção narrativa, mas também alguns tópicos essenciais como, por exemplo, o «desapontamento – desapontamento inglez – que não ha outra palavra em lingua nenhuma que expresse o que eu senti – desapontamento tam triste e tam agudo, nunca o provei. O interior da egreja é exactamente o tal mixto hermaphrodito de architectura amphibia e ridicula, de doirados e marmores fingidos, de columnas anomalas que a nenhuma ordem pertencem – ou mais exactamente, formam a nova ordem asnatica, adoptada para a construção de quase todos os novos edifícios de Portugal, e para a emplastação e degradação de todos os antigos.»
Não deixa de ser curiosa, para além de outros variados aspectos, a avaliação histórica de João Mínimo: «O que fica (...) são os bons tempos da monarquia, são os reinados da raça Joannina antes do captiveiro castelhano...» Esta será, no essencial, a História de Portugal de Oliveira Martins, que Pessoa retomou na Mensagem.
João Mínimo, depois de um longo exílio interior, abandonará mesmo «este malfadado paiz», ‘deixando’ os seus versos a Garrett.
Onde é que quero chegar com tudo isto? A que a genealogia do desencanto português com Portugal passa, de forma decisiva, por Garrett. Poder-se-á, talvez, dizer que, no autor das Viagens, esse desencanto é contrabalançado por uma vontade civilizadora e uma espécie de fé no «Portugal velho», autêntico, a que também se refere João Mínimo, vontade e fé que se foram gastando e perdendo nas gerações seguintes, sem nunca desaparecer, porém, por completo, nem mesmo com Eça. Talvez. É aliás, de certo modo, essa convicção que alimentou o chamado neogarrettismo, ideia literária de um «nacionalismo esclarecido», que escapasse ao provincianismo sem se afastar do tradicional.
Seja como for, em Garrett, parece-me evidente, coincidem gosto e desgosto pelo país. O desgosto aproxima-nos do Autor, o gosto talvez nos reconcilie brevemente com o país, que é, queiramos ou não, a razão de sermos o que somos.
Mas, entre a «Notícia» e as Viagens, há, entre outras óbvias diferenças, uma que me parece de extrema importância. É que, além de uma língua mais aparada, Garrett afiou e refinou a ironia. Será esse o segredo da nossa sobrevivência?


Texto originalmente publicado no blogue O Divino, em Dezembro de 2004.

domingo, 19 de junho de 2011

Memórias Intactas

Um dia perguntaram-me sobre o meu entusiasmo pelas Viagens na Minha Terra e as razões do enfado de outros. A chave, creio, está no tom adequado da leitura. Aquele tom, ou meio tom, de ironia amistosa que, ao denunciar-se, permite ir dizendo mais e mais gravemente do que o anunciado. Um tom cuidadosamente coloquial, subtilmente brincado, astuciosamente digressivo. Onde mais encontramos isso na nossa literatura? A graça, o donaire (palavra admirável e fora de moda) da prosa ameniza as agudezas do pensamento e a floresta de referências, mais densa que o pinhal da Azambuja. Faz esquecer momentos de quebra, pontos de desequilíbrio. Não é, obviamente, uma obra para ler nos alvores da adolescência, um disparate que afastou gerações de leitores.
As Viagens são uma obra inteligente, variada, elegante, europeia. E muito romanticamente portuguesa. Há nela, ainda, o que a alguns parece puerilidade e é genuína vontade civilizadora. Apesar do seu valor matricial na literatura portuguesa, afasta-se muito do horizonte do leitor actual. Talvez seja mais fácil, hoje, que se apreenda, embora de forma quase sempre esquemática, o trágico de Frei Luís de Sousa, fechado na sua construção, do que a observação arguta ou a alusão culta que Garrett usa, com natural à-vontade, nas Viagens. E o episódio sentimental de Carlos e de Joaninha, isolado, fica a perder em confronto com o desenrolar tenso da acção dramática.
As Viagens nada têm que as torne populares ou queridas de um público como o nosso. A tentativa de as impor, no ensino, como marco histórico e literário, tem falhado triunfalmente. Os leitores mais fiéis das Viagens são, estou convencido, escritores, gente do ofício.

domingo, 29 de maio de 2011

Dimensões

«É preciso crer em alguma coisa para ser grande», escreveu Garrett. Não crermos mais em mais nada: reside nisso porventura a nossa actual pequenez. Mas poderia ter-nos dado também um maior sentido da realidade.