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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Estende a tua sombra sobre os relógios de sol
e lança os ventos sobre as campinas.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias de calor,
leva-os a atingir a perfeição e deita
um travo doce no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não a construirá.
Quem agora está só, ficará só por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e percorrerá desassossegadamente as áleas
enquanto as folhas voam.


Rainer Maria Rilke, «Herbsttag», Das Buch der Bilder/O Livro das Imagens, tradução de Rosário Macieira Coelho.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O poder subtil

[...] E, não obstante, Orfeu não era um herói habitual: não possuía a força de Hércules, nem a valentia de Aquiles, nem a astúcia de Ulisses, nem a sabedoria oracular de Tirésias. Era, pelo contrário, um homem frágil, suave, cujas façanhas se destacavam, não pela sua tenacidade ou violência, mas sim pela subtileza. Ninguém podia superar este poder subtil.
Disso emana o mistério de Orfeu: o seu poder brota de uma fonte que os outros heróis desconhecem. Nem mesmo os homens, modernos ou antigos, o reconheceram com exactidão. Mas a água desse manancial fala-nos de outras regiões da consciência, de outros territórios do espírito, de caminhos que estão antes daquilo a que chamamos nascimento e depois do que cremos ser a morte. Orfeu não revela a origem do caudal que o alimenta, mas, em compensação, revelou aos homens o nome desse pacífico, tempestuoso caudal eterno: a música.
A superioridade de Orfeu é este poder subtil. Com ele paralisa o inferno para resgatar a sua amada Eurídice; com ele amansa a matilha, com ele se oferece à morte e brilha no renascimento. Rilke, nos seus Sonetos a Orfeu, expô-lo de forma belamente concisa:

nnnnnnnnnnnnnnnnSó quem a lira assim
nnnnnnnnnnnnnnnnnas sombras já empunhar
nnnnnnnnnnnnnnnnpode o louvor sem fim
nnnnnnnnnnnnnnnnpressentindo entoar.
nnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn(trad. de Vasco Graça Moura)

Rafael Argullol, Enciclopedia del crepúsculo, Acantilado, Barcelona, 2005.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sentimentos em desuso: delicadeza

Rodaun, 16.12.1925*

Caro Rilke

(...) tenha a amabilidade de aceitar hoje os meus votos, cujo sentido é este: que possa, enquanto viver, não perder nunca a impressão de grande força, que está depositada em si como se fosse um muito delicado receptáculo, e que o dia em que deixe de ser receptivo à força que faz nascer nos outros, e que irradia em redor de si, nunca chegue.
Posso acrescentar que cada encontro consigo é, para a alma, um momento especial, claro, límpido e muito agradável.

Do fundo do coração,
o seu Hofmannsthal

* Rilke nasceu em 16.12.1875, pelo que se tratava do seu quinquagésimo aniversário. Morreu um ano mais tarde, a 29 do mesmo mês.

Hofmannsthal, Lettres à Rilke (1902-1925), trad. Pierre Deshusses, Rivages poche, Petite Bibliothèque, 2004.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Um poema, três universos poéticos

Segunda estrofe do soneto 22 dos Sonetos a Orfeu
de Rainer Maria Rilke

Alles das Eilende
wird schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.

na tradução de Vasco Graça Moura
(Sonetos a Orfeu, Quetzal, 1994):

Tudo o que acelera
foi depressa e vão,
no que fica espera
nossa iniciação.

na tradução de David Mourão-Ferreira
(Vozes da Poesia Europeia, Colóquio/letras 165, 2003):

O que depressa corre
em breve é já passado:
só no que se demora
somos iniciados.