segunda-feira, 8 de março de 2010

Opiniões

Misturámos o sublime
com o que não tem poesia,
senão nas palavras gastas,
gastas por mor da mandria.

Não ouvimos o sublime
no lá musical, na onda
sobrepuxada pela linha
formulada em geometria.

Fizemos da forma, formas
de pudim flan relegado
ao menu habitual.
Agora, coisamos coisas.

Agora, damos sinal
de alarme, de confusão
albergada no telhado
da nossa imaginação.

Se não falta galhardia
e o poema é como o tal,
demos graça ao sublime
que nos salva a poesia.

Tudo o resto é teoria
sempre à beira da estrutura.
Se a poesia é madura
reproduz-se natural.

A onda é onda na onda
esparzida no silêncio
de uma praia abandonada.
A onda é coisa real.

O demais, é quanto tempo
se distrai na linha pura,
pedindo ao sopro do vento
outra espécie de frescura.

O mais, não o sopra o vento.
É uma espada fugidia
vibrando no ar latente
que é a própria poesia.

Que é o próprio coração,
espada, digo, punhal
empunhado pelo ar.
Cantar é mais que ornamento.

Cantar não é provimento.
Muito menos terapêutica.
Teoremas analisam.
Meteoros iluminam.

A luz na palavra canta.
Aclara-se em alegria.
A comida está na mesa.
Com tanta fome, enfastia.

Ruy Cinatti, Memória Descritva, Portugália Editora, col. Poetas de Hoje, Lisboa, 1971.