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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sete argumentos para defender a poesia por entre o ruído


Sete argumentos para defender a poesia por entre o ruído. Também poderia ser: Sete argumentos para defender a utopia por entre os lugares comuns. Em ambos os casos, os argumentos são também cenários e atitudes. O silêncio, a origem, o intempestividade, a depuração, a lentidão, o jogo, a jovialidade. Há uma dependência mútua entre eles, e creio que servem para definir, hoje, tanto as coordenadas do facto poético como as pistas de uma certa rebeldia ou resistência.
O silêncio, em primeiro lugar, porque a poesia está essencialmente vinculada ao silêncio. Inclusivamente, num sentido anatómico. A poesia é um gotejo verbal que parte do silêncio, marca a fronteira do silêncio. É importante dizê-lo num momento em que nos movemos numa vertigem de ruído.

Rafael Argullol em Maldita perfección, escritos sobre el sacrifício y la celebración de la belleza, Acantilado, Barcelona, 2013.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Aos bons ingenhos

A vós só canto, espritos bem nascidos,
a vós, e às Musas ofereço a lira,
ao Amor meus ais, e meus gemidos,
compostos do seu fogo, e da sua ira.
Em vossos peitos sãos, limpos ouvidos,
caiam meus versos, quais me Febo inspira.
Eu desta glória só fico contente,
que a minha terra amei, e a minha gente.

António Ferreira, Poemas Lusitanos. Edição crítica, Introdução e Comentários de T. F. Earle, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2000.

sábado, 15 de junho de 2013

Poesia

xxxCésar seguiu de longe com infantil respeito e susto a família, até àquela parte mais elevada da Foz, que chamam Monte. Viu-a entrar em casa, animou-se a convizinhar da porta, que se fechara com aquele estrondo, que é uma rija pancada em peitos de amantes, e por ali se deteve alguns minutos, contemplando as janelas, e dizendo entre si: «Ou me não me ama, ou me aparece, por detrás das vidraças, quando mais não seja».
xxxEste monólogo não me parece tão lírico nem puxado de linguagem quanto era de esperar. Eu achava muito mais interessante que César começasse o seu monólogo por estas ou equivalentes palavras exclamativas: «Ó tecto abençoado, que cobre a mansão da minha amada! Ó receptáculo de um anjo! Ó pedaço de céu povoado por Ela»... Et coetera.
xxxDevia ser assim, e creio que até algumas vezes terá sucedido dizerem amantes coisas muito mais peitorais diante da pedra bruta que os separa do objecto amado; mas, a darem-se factos semelhantes, isto é, a apóstrofe do homem à pedra, eu ficarei propenso a crer que a inteligência da pedra tem razão para rir da inteligência do homem. O mais ordinário e corrente é não dizer ninguém semelhantes palavriados em casos análogos; e, portanto, César não disse disparate nenhum, pelo qual desde já o encartemos na repartição dos namorados alarves.
xxxO sucesso diz em crédito do moço. Dali a pouco, abriu-se subtilmente uma janela, rangeram gomas, ciciaram sedas, entre a compressão das mal-abertas portadas, e Clotilde encostou-se ao banzo da varanda.
xxxNeste ponto, César deu um testemunho indelével de seu puríssimo amor: é que não avançou um passo da sua postura estatuária, não proferiu um monossílabo, nem acreditou inventada a palavra própria da sua situação! Isto, leitor, é que é amar; isto é que é poesia. Creia vossa excelência que, se ele tivesse dito entre si: «Ó tecto abençoado que cobres a mansão da minha amada!» também depois exclamaria umas parvoiçadas muito mais graúdas, com as quais, meninas incautas se deixam embelicar, excepto aquelas que leram, ao saírem do colégio, histórias de tolos, e desde logo formaram em seu espírito uma espécie de estalão para lhes medirem a altura, quando a desgraça lhos deparar ao correr da vida.
xxxA elas, e a nós, e a todos os que nos lerem, livre Deus de tolos, de tolos à força de estilo, que são os mais daninhos herpes do corpo social.

Camilo Castelo Branco, excerto de «César ou João Fernandes» em As Novelas de Camilo, selecção, prefácio e notas de Alexandre Cabral, Portugália Editora, Lisboa, 1961.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pintor Búlgaro en la Vía Augusta


Pintó el artista un tranvía
de la vieja Lisboa.
 
Volvió a pintar otro,
recordando al anterior.

El nuevo tranvía
esperaba su destino.

(Una mujer
lo vio bajo la luz caída,
comprobó
su hermosa estampa,
y se lo llevó
para emprender en el
un viaje irrealizable)

Georgi Choraka
alcanzo a decir:
"Obrigado”.

Alfredo Pérez Alencart em Antologia Búlgara, Salamanca-Sófia, 2013. 
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Esclarecimento importante

A relação entre a poesia da experiência e a poesia da retórica não é a mesma que a relação entre a poesia da realidade e da imaginação. A experiência, pelo menos no caso de um poeta de qualquer âmbito, é muito maior do que a realidade.

Wallace Stevens, «Aphorisms», Opus Posthumous: Plays, Poems, Prose, ed. revista, corrigida e aumentada por Milton J. Bates, Vintage Books, 1990.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Interior

Os espelhos estudam pelo inverno
o brilho do seu timbre envelhecido.
Auscultam nimbos últimos. No intento
de sugerirem cantos, quando os vidros

ângulos abrem fundos ao silêncio
e o crescimento dum lugar antigo.
A luz, depois, recolhe-se ao momento
de estar ensimesmando os tempos idos.

Que, frágeis, fulgem, quase nem reflexos
de um mundo sonolento de vestígios.
Depois ainda, a superfície um vento

esculpe. Efígies e apagados signos
adormecem em paz. Enquanto o espelho
atento guarda a escuridão do sítio.


Fernando Echevarría, Uso de Penumbra, Afrontamento, Porto, 1995.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Da repetição

A intertemporalidade e a interespacialidade são a coisa da poesia. O poeta é o taumaturgo, o diábolos, o saltimbanco que atravessa as paredes e os séculos. Não é o fingidor, Fernando, pois só finge quando finge que está fingindo. Os outros, os críticos acadêmicos, vivem no estrito mundo tridimensional. Não conhecem as surpresas da quarta, da quinta, da milésima dimensão das coisas, dos lugares e das pessoas. Do poliedro universal. Etc. «Répétez, répétez sans cesse, le nouveau viendra au galop.» Mas pergunta Kierkegaard la répétition, est-elle possible? Sim, mein Herr, mas só para o poeta. Acho que esta é a conclusão, senão explícita, de todo o modo evidente, no Tratado da Repetição. Só há uma forma boa de gerar um ser novo no ventre de uma fêmea: repetir o ato imemorial de Adão em cima de Eva, com um movimento entre a cintura e as ancas.  O resto é inseminação artificial. A repetição gera o novo. Etc.» (Em carta antiga a J. F.)

Gerardo Mello Mourão, «Epitáfios», Invenção do Mar - Carmen Saeculare, Record, Rio de Janeiro, 1997.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O poeta não é poeta só quando canta

O poeta não é poeta só quando canta, mas também quando perde o compasso. Quando o poeta perde o compasso já não pode medir os seus versos. E os versos ficam sem pés com que possam bailar. Não há baile de versos, poeta: o teu silêncio deixou sem cadência e sem ritmo a dança e a canção subtil. E o silêncio era tão profundo, que se via estremecer o pensamento, espada desnuda e ardente, guarda e signo da poesia, ou do Éden.

José Bergamín, em «Arte de temblar», El cohete y la estrella/ La cabeza a pájaros, Ediciones Cátedra, col. Letras Hispánicas, 2.ª ed., Madrid, 1984.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

As fidelidades electivas


Recordo-me de um dia, no intervalo de um congresso, Gilberto Mendonça Teles se ter lamentado por ter tido de escutar outras intervenções, na mesa, sem lápis ou caneta com que rabiscar. É que, explicou, à volta de uma palavra ouvida ou lembrada por vezes se ata outra e nesta um verso hipotético pedindo ao poeta que outros nele se entrelacem ou encavalitem, pois quem sabe se mais tarde, passado o crivo do tempo, eles levam ao poema.
Este episódio sempre me pareceu emblemático da fidelidade de Gilberto à palavra. À palavra física, a falavra, diz ele, repleta de sucos, sons e evocações, e ao que por dentro nela lavra e que é larva, digo eu, estado primeiro, ponto de partida das metamorfoses do sentido e do contágio dos sentidos.
Nesta fidelidade à palavra há toda uma humildade que simultaneamente contém uma disposição paciente e oficinal e uma vertigem avassalante, ambas se confundindo sob a batuta astuta do Poeta, que não se furta à luta e ora é senhor ora é servo, mas sempre fiel à sua condição.
A palavra trina – isco, anzol e presa: eis como tudo se passa entre o professor, o crítico e o poeta.
Fidelidade à palavra («Tudo em mim é desejo de linguagem») que é no mesmo passo centro e limiar, polpa e pele, miolo e côdea, fronteira entre aquém e além, alvorada e crepúsculo, libertação e vício, que é habitação e habitante. E é nome, palavra-moradia, com suas exigências de clausura, modo de vida, rendição, e riso e sorriso também.
Fidelidade à palavra que congrega, segrega, e sobretudo agrega o passado do futuro ao presente da memória, a experiência ao experimento, o viso ao improviso, o órgão à volúpia.
O texto integral de «As Fidelidades Electivas» está publicado em As Artes Entre As Letras (Porto, 13 de Julho de 2007).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Memórias Intactas

Pertenço a uma geração que, na adolescência, ainda leu e se emocionou com o «Cântico Negro» (e com a «Toada de Portalegre»), de José Régio, dito com o veemente rasgo declamatório de Villaret. Esse rasgo contribuiu para banalizar o poema e à banalização seguiu-se o banimento, precedido pela condenação da retórica grandiloquente e do dramatismo de efeito (é claro que também teve que ver com a menorização ideológica da estética presencista e do próprio Régio, entre outras coisas). A poesia deixou – para o bem e para o mal  de ser declamada para ser dita. As selectas e as colectâneas literárias foram substituídas por manuais em que as ilustrações e os comentários tomaram o lugar dos textos. Se outra razão não houvesse, o espaço bastaria para determinar o desaparecimento do «Cântico Negro» do imaginário das mentes educandas. Poderia dizer-se o mesmo da «Tabacaria» de Fernando Pessoa, mas Pessoa teve outra fortuna e impôs outra presença. Julgo que, se ainda fizesse parte do cânone, o «Cântico Negro», por razões intrínsecas, ainda despertaria – ou ainda faria descobrir emoções e talvez produzisse uma outra consideração pela poesia (comprovei-o com os meus alunos, em meados dos anos oitenta). Pessoalmente, o «sei que não vou por aí» ainda me arrepia, mas há muito que já não me convoca. Curiosamente, o verso de «Cântigo Negro» que mais retive na memória e que frequentemente me ocorre é «e vós amais o que é fácil», que transformo para meu uso em «vós, que amais o que é fácil».

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Homenagem a GMT no dia de seus 80 anos

Modernismo

No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
Eu sou romântico de corpo e alma, de dentro e fora,
de alto a baixo, de todo lado: do esquerdo e do direito.
Eu sou romântico de todo o jeito.


Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,
um individualista confesso, que adora luares,
que gosta de piqueniques e noitadas festivas,
mas que vai se esconder no fundo dos restaurantes.
Um sujeito que nesta reta de chegada dos cinquenta
sente que seu coração bate tão velozmente
que já nem agüenta esperar mais as moças
da geração incerta dos dois mil.

Vejam, por exemplo, a minha cara de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D.Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.

Vejam meus tiques e etiquetas,
meus sapatos engraxados,
meus ternos enleios,
meu gosto pelo passado
e pelos presentes,
minhas cismas,
e raptos.

Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do século
e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.


Gilberto Mendonça Teles em & Cone de sombras

terça-feira, 28 de junho de 2011

Dramas portugueses

Anti-Soneto

O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.

Carlos Queirós

Nota
Um dos outros nossos dramas maiores é também o esquecimento fácil; uma das provas reside no facto de que a obra de Carlos Queirós não está hoje disponível, como amplamente merecia.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Uma poesia irredutível

Uma poesia irredutível, uma poesia que se alimenta da sua própria vertigem cósmica nunca se entregando por completo aos mecanismos da inteligibilidade. O caudal das imagens e das metáforas, a cada passo retomadas e renovadas, parece arrastar consigo o poema, mas é o poeta quem conduz esse canto inebriado e obscuro, liberto de constrangimentos e nexos lógicos exteriores, mas fiel a uma energia que, brotando de dentro do próprio poema, é submetida a um rigoroso labor. Dessa oficina nascem relações surpreendentes e belas na sua estranheza, de algum modo devedoras de uma estética surreal ou fantástica, mas em que, paradoxalmente, o real toma o lugar do onírico. Carregado de múltiplas e límpidas cintilações, o texto adensa-se até à opacidade. Mas continua a brilhar. [excerto de um texto sobre Herberto Hélder]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Memórias Intactas

A voz de António Osório chegou à literatura portuguesa com a serena gravidade da sabedoria. Serena na sua delicadeza primordial, grave pelo pendor clássico dos temas e pela funda seriedade, sábia pela certeza aforística das palavras e pelo suave manejo da ironia. Emanando do legado de Orfeu, a sua escrita tem o condão de revelar, ou, melhor, de criar a evidência poética das coisas comuns. Olhar «atónito», de quem «anda nas nuvens», o Poeta estabelece nexos subtis na sintaxe dos acontecimentos e torna a própria realidade visível, chegando até a criar a ilusão de que a poesia pode existir fora do poeta, e não exclusivamente pela sua justíssima palavra. [no lançamento de Libertação da Peste ]

terça-feira, 7 de junho de 2011

Um Poeta

Hás de testemunhar ruínas
antes de existirem as ruínas:
engenheiro de troços e destroços
empreitaras destruições
desmoronaste muros.

Profeta riscas riscaste riscarás
roteiros de pássaros no ar e riscas
calendários passados e futuros riscas
a arquitetura dos escombros
antes durante e depois deles
os tempos ouvem ouviram e ouvirão
esses passos de pedra
que pisam pisaram pisarão
rosa, lírio, jasmim e às vezes
ovelhas imoladas.

Maios, janeiros, setembros e outros meses
meses azuis e meses pluviais
te saúdam à beira das falésias à beira-mar à beira-rio
à beira-abismos à beira-séculos:
piloto do naufrágio
governador dos tempos tretarca dos milênios
arquivista tabelião das eras
só os dias, poeta, e as noites, te conhecem
sabem teu nome
e nenhum outro nome.

Gerardo Mello Mourão, Cânon & fuga, Editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 1999.

A diferença

Distante e discreto, um poema de Alberto de Serpa (dedicado a Pessoa) incluído num livro oferecido «a Jorge de Lima, grande poeta do Brasil», edição presencista dos anos trinta, tem um verso penetrante: «O poeta é independente. Só ele sabe.» Esta defesa da autonomia do poeta tem um lugar na época em que foi escrita, como sabe quem conhece as batalhas do segundo modernismo, que aliás saía a terreiro para defender o primeiro. Esta singularidade do saber do poeta (particularmente a natureza desse saber) está na base de uma altivez, só plenamente compreendida sobretudo por outros poetas. Porém, como toda a gente não se cansa de dizer, o mundo mudou, e esta defesa também serve hoje, implicitamente, muitas vezes, para justificar o desvario e o disparate. Mas o mesmo poema de Alberto Serpa também declara com lucidez «a poesia não está nos assuntos poéticos»: «a poesia está no poeta». E isso continua a fazer toda a diferença.

sábado, 4 de junho de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (5)

para a Magda

Do rio retém o rumor,
da asa o rasgo,
da razão o risco.
Do silêncio retém o sinal,
do tempo o sangue.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (3)

Aspira o ressumbro transcendente
do húmus, após as primeiras chuvas.
Deixa ressoar em ti o atrito grave
e resinoso de sublimes crinas.
Embebe-te dos bastantes avos
da alma compassiva de velhas uvas.
Mas não digas nunca a palavra droga,
porque o ó não passa no esófago
e ficará a bailar-te na boca para sempre.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Para um Manual de Auto-Ajuda (2)

Esse ardor nos pulsos
não é um caso de creme.
Experimenta levitar
para evitar
cometeres um crime.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Materiais

Osso

É nos ossos que sofremos a História,
mesmo se salvarmos a pele.

Pedra

Breve história do homem:
uma pedra no sapato,
sete pedras na mão.

de Pequeno Guia de Materiais (2007)