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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Memórias Intactas

Sobre Ruben A. (excerto): o historiador abre caminho ao escritor com a publicação do primeiro volume de Páginas, a primeira das suas deambulações na primeira pessoa, testemunho do seu “inconformismo civilizado e limpo” (Luís Forjaz Trigueiros), prolongadas depois na autobiografia. Nelas se engendraria o novelista e romancista, que teve em Caranguejo o seu primeiro “exercício de arquitectura literária”. Tais exercícios, de evidente modernidade, apurar-se-iam na fantasia de O Outro Que Era Eu (1966) e no complexo polifónico de Silêncio para 4 (1973). Mas é em A Torre da Barbela (1964) que fantasia e polifonia se encontram com o seu «terrivelmente lúcido amor a Portugal» (id.), romance de singularíssimo recorte, inimitável e inimitado, alegoria surreal da História da nação portuguesa, escrito numa língua que sabe ser nova sem se arredar da antiga.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Memórias Intactas

Um homem no cais da estação do metropolitano. O fato impecável sublinha-lhe o aspecto cuidado, a silhueta clara. Na carruagem, fica de pé junto à porta do lado oposto à da entrada. Duas mulheres de condição humilde, acolchoadas contra o frio, rosto rude, acomodam-se de frente para ele. A proximidade é desconfortável. Disse uma delas, para sair do desconforto:
– Nice tie...
O rosto dele abriu-se num sorriso sóbrio.
– Thank you... Do you think so?
– Yeah – respondeu ela com um aceno de cabeça, observando, um segundo depois: – You work downtown.....
– Yeeeah... – confirmou ele.
– Tired? – quis ela saber.
Ele encolheu os ombros, sem desmentir. Elas sairam pouco depois, despediram-se:
– Bye!
– ‛night... bye! – ecoou ele, caloroso. Saiu umas estações mais adiante.
Vieram-me à cabeça os versos de Álvaro de Campos que Ruben A. usa como epígrafe de Caranguejo: «O florir do encontro casual dos que hão sempre de ficar estranhos».
Prevenido contra a fria impessoalidade das grandes metrópoles, onde ninguém se conhece, saí para o vento cortante da noite nova-iorquina a pensar como, na pequena Lisboa, aquele diálogo seria tão completamente impossível.