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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre a natureza dos projectos

O projecto do jovem Jean Paul era: «Escrever livros, para poder comprar livros». O projecto dos nossos jovens escritores é receberem livros grátis, para poderem escrever livros.

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955)/ Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tecnologia: de volta à idade da pedra.

Ouço falar sobre as «funcionalidades» que os suportes para leitura de livros electrónicos permitem accionar. Fala-se, por exemplo, de uma maior aproximação entre leitor e autor, com o acesso directo ao twitter deste último, que se supõe dever ser incessantemente alimentado. Estamos a voltar à idade da pedra! A única aproximação do leitor ao autor deveria ser a obra do cavalheiro que escreve. Tudo o resto é espúrio. Tudo o resto é a menorização da própria escrita e a negação da natureza do literário. Em geral, a única aproximação interessante a uma figura autoral é pela mediação da escrita, de outros ou do próprio (crítica, ensaio, biografia, diário, correspondência, memórias, etc.), ou eventualmente pela sua presença, forçada e formal, de modo a que as suas palavras adquiram um sentido que não se enquadre no puro quotidiano. Tudo o resto é espúrio. Tudo o resto é estúpido. E aos autores que com isto se encantam, recordar-lhes-ia que, como diz o meu pai, enquanto se canta, não se assobia.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dos livros - V

Li, um dia, a tradução de um texto de Cavafis, intitulado ars poetica, publicada num número da revista Litoral, que Fernando Guedes me oferecera: «Além disso, [o poeta] vive, ouve, compreende; e os poemas que escreve, se não são verdadeiros para a vida real de uma pessoa, são-no para outras vidas. (...) E quando vive, ouve e indaga com inteligência, e se esforça por escrever a sua obra com critério, ela decerto não pode deixar de dizer respeito a alguém.»
Mais tarde li também que Julien Gracq, citado por Enrique Vila-Matas, terá desabafado: «...O escritor não tem nada a esperar dos outros. (...) Só escreve para ele!».
O que não tira razão a Cavafis.

Dos livros - IV

À medida que envelhecemos, quando chega a oprimir-nos esse acervo de livros que já não leremos, à medida que o tempo passa e se faz, cada vez mais, dramaticamente escasso, temos a nostalgia de uma biblioteca essencial, de poucos mas bons livros. Aqueles que nos formaram e encantaram — e decidiram, porventura, do nosso destino. São os livros que levamos para a tal ilha deserta. Ou, na lúcida advertência de um leitor omnívoro como Jünger, os livros que traríamos dessa ilha, livros que parecem sempre novos a cada releitura, e preenchem o vazio de horas de solidão e silêncio, e nos confortam neste duro ofício de viver. Livros que, para uns, são os grandes monumentos literários, referências obrigatórias do nosso património cultural. Livros que, para outros, não são os grandes clássicos, que toda a gente conhece ao menos de nome, mas as obras mais discretas, quase descobertas pessoais — não as teríamos encontrado se as não tivéssemos procurado —, talvez confissões em surdina, memórias interiores, diários íntimos, epistolários em busca de um diálogo com o Outro. São, em suma, livros que podemos ler de qualquer maneira, sentados, de pé, deitados, em privado e em lugar público, sem que seja mister vestir-nos de ponto em branco, como para receber visitantes ilustres. Como fazia Maquiavel quando relia os seus clássicos latinos e italianos.

Excerto de um texto de João Bigotte Chorão intitulado Os livros que se trazem da ilha

Dos livros - III

A antecipação é um dos grandes labores do erotismo. Não direi que tenha desaparecido por completo, mas como explicar aos imediatistas de hoje a perda do gesto de antecipado encanto, de premeditada descoberta, o gesto inaugural de abrir um livro, de fazer deslizar a lâmina quase silenciosa por entre as folhas, apressado e brusco certas vezes, outras vezes lento e delicado, preliminar da leitura opulenta?

Dos livros - II

Livros e autores que nos chegam por contágio, por entusiasmo cúmplice de amigos ou de mestres e que, assim, vão alargando o círculo do seu alcance, estabelecendo uma família de leitores que, chegada a sua vez, hão-de passar palavra. Vêm impregnados de admirações, e isso torna-os ainda mais secretos, e mais nossos. São livros e autores a que voltamos sempre.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dos livros - I

Não há quem não escreva e fale de livros, dos grandes e dos pequenos, dos mais badalados da semana, do mês, do ano, dos últimos dois anos e meio, até dos últimos, digamos, treze anos. Fala-se dos melhores, dos mais vendidos, dos que acabaram de sair — que são momentaneamente os melhores —, dos que estão para sair. Do mercado do livro, claro. Das feiras do livro e dos feirantes de livros. Do negócio dos livros. Dos espaços com livros. Das actividades à volta dos livros. Da crise do livro. Da fatalidade de o livro acabar. Da fatalidade de o livro não acabar. Da importância-cultural-social-e-económica-do-livro. Do marketing dos livros, senhoras e senhores, do marketing. Para não falar da revolução tecnológica, sim, no livro também, e na leitura igualmente.
Não há quem não use livros na lapela ou na sacola. Mas praticamente ninguém escreve ou fala sobre livros, sobre ler um livro. Sobre aquilo que fica dos livros que se lêem. Quem pega, hoje, num livro para ler por pura saudade? Aconteceu-me, não há muito, com a Léah, de José Rodrigues Miguéis. Que maravilha. Devo estar velho. Mas, também por isso, já leio livros há muito tempo.