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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre a natureza dos projectos

O projecto do jovem Jean Paul era: «Escrever livros, para poder comprar livros». O projecto dos nossos jovens escritores é receberem livros grátis, para poderem escrever livros.

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955)/ Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Arte de bem pensar

... é preconceito enraizado, entre literatos e diletantes, que o escritor é exclusivamente um sensível, quer dizer, uma pessoa dotada, em alto grau, de permeabilidade aos fenómenos da emoção estética pura. Quem assim pensa, exclusivamente confia a factores infusos, a factores (digamos a palavra) fatídicos, o que afinal é função de faculdades intelectuais, doseadas embora nas proporções de um dom ou predisposição inata. Chamemos génio a esse condão (ou talento, ou inspiração, ou tendência); partamos da sua necessidade para que o escritor seja artista, mas atendamos a que a arte de escrever tem uma técnica que se não reduz à simples euritmia, senão que se alarga a processos lógicos e dialécticos, e que portanto se enquadra na arte de bem pensar. Nada mais falso do que tomar uma língua por simples matéria plástica, meio de dar a cor, o som, o impressionante, o pitoresco. A linguagem, sendo um facto originariamente psicológico, é, no grau superior (e só este importa verdadeiramente à literatura), uma conquista racional, e portanto um instrumento inegavelmente lógico.

Vitorino Nemésio, «A Arte de Escrever», O Instituto, vol. 76, Coimbra, 1928.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Elogios que matam

O que distingue essencialmente Camilo de outros escritores, anteriores ou contemporâneos? Qual a grande diferença relativamente a um Garrett, por um lado, e a um Eça, por outro? A resposta está no maior conhecimento de Camilo das profundezas da alma humana. É nesse ponto, aliás, que reside a universalidade de um escritor tão enraízado. Espanta-me, por isso, que se possa reduzir, ainda que com o intuito de seduzir, o autor de O que fazem mulheres a enredos trágicos e paixões funestas – aspectos que, pelo que leio, estão de acordo com a «onda» actual – escritos com palavras que já ninguém usa. Há elogios que matam.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A falta de estrume

A criação literária, como todas as coisas deste mundo, é muito afectada pela vitalidade de quem a leva a cabo. O processo é o mesmo que o da germinação vegetal em relação à terra. As terras mais aptas são as que têm mais fertilizantes, mais estrume, e são por sua vez as mais bem alimentadas e regadas. Dizem os camponeses: «Este campo tem falta de estrume. É demasiado mineral, não tem nada que o alimente». De alguns escritores — pobre de mim! — poderia dizer-se o mesmo. Falta-lhes estrume, a sua esterilidade mineral é excessiva.

Josep Pla, «Notas Dispersas», Dietarios (I), Espasa Calpe, Madrid, 2001.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O trágico dilema

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Mário Quintana, Caderno H, Editora Globo, São Paulo, 2.ª ed. 2006.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Escrita, escritores

Há duas espécies de escritores. Os que o são e os que o não são. Nos primeiros, o fundo e a forma formam um conjunto, como a alma e o corpo; entre os segundos, o fundo e a forma conjugam-se como o corpo e o hábito.

*
Etapas de quem escreve: ao princípio, não se está habituado e, por essa razão, tudo corre sobre rodas. Mas, de seguida, torna-se cada vez mais difícil; e quando verdadeiramente se ganha mão, então há mais de uma frase que não se consegue terminar.
*
Porque escreve aquele determinado tipo? Porque não tem carácter suficiente para não escrever.

Karl Kraus, Sprüche und Widersprüche (1955)/ Dits et contredits, trad. de Roger Lewinter, Éditions Ivrea, Paris, 1993.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Presunção e atrevimento

Sei de um certo professor de Língua Portuguesa do ensino secundário que, nos testes de avaliação, propõe a interpretação e análise de textos escritos por si próprio.
Há nisto uma presunção sem limites, só perceptível à luz do estado de inanidade a que as coisas chegaram. Há nisto um atrevimento que roça a ingenuidade, para não dizer a patetice.De distorção em distorção, a coisa dá azo a que a criatura, escorando-se unicamente no seu auto-proclamado estatuto de «autor» («não foi isso que eu quis dizer quando escrevi isso»), só autorize certas análises e interpretações, ou certas observações.
Nada legitima uma tal coisa, mesmo que o homem fosse um escritor. Repito: um «escritor», e não apenas um tipo que escreve umas coisas, embora com todo o direito a escrevê-las, diga-se.
Houve um tempo em que havia muitos grandes escritores que, ao mesmo tempo, eram professores e prestigiavam o ensino (da Língua, mas não só). Não me consta, porém, que propusessem os seus próprios textos aos alunos, muito menos em testes de avaliação.
É mau. É manhoso. É tão mau e tão manhoso como haver editores que se publicam a si próprios. E não estou a falar de edições de autor.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Duas historietas

Um dia, na avenida que dá para a Porta al Prato, encontrei um escritor amigo que há pouco tempo tinha publicado um romance. Depois de me ter feito falar sobre assuntos que não importavam nem a ele nem a mim, perguntou-me à queima-roupa:
– Leste o meu romance? Que te parece?
– Li-o – respondi, muito sério – e o conselho de alguém que te quer bem seria este: metade do livro deveria ser cortada e outra metade deveria ser refeita por inteiro.
O amigo não respondeu nada mas carregou o sobrolho e saudou-me à pressa. Desde aquela tarde, e nunca compreendi porquê, esgueirava-se sempre que me avistava de longe ou, então, se não podia mesmo deixar de me encontrar, era frio para comigo, mais ainda do que a sua prosa. Outra vez, anos depois, fui detido, na praça da Signoria por um jovem poeta selvagem que me tinha enviado tempos antes um seu livrito de versos, nos quais me pareceu reconhecer a influência e a reminiscência da minha Primeira Obra.
O jovem, mal me deteve, perguntou-me em tom entre ufano e apreensivo:
– Leu as minhas poesias?
– Sim – respondi sem pestanejar – li-as todas e notei logo que também leu as minhas.
E, desde aquela tarde, também o poeta me mostrou sempre maus modos, como tinha feito o romancista.
Estas duas historietas demonstram que com os amigos escritores é necessário ou sermos mentirosos ou resignarmo-nos a transformá-los em nossos inimigos.

Giovanni Papini, La Spia del mondo, Florença, 1955.
Tradução portuguesa de José Terra: Vigia do Mundo, Livros do Brasil, Lisboa, 1955.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Literatura

Um escritor, não contemporâneo, já se vê, daqueles para quem o estilo é a primeira exigência da escrita literária, ensinou-me há muito que, para quem escreve, a pior coisa que pode acontecer é tentar «fazer literatura».

Escritores

Os escritores, antes, tinham uma reputação. Literária, antes de mais. Antes da outra. Os escritores agora são uma marca. A sua reputação é o que a sua imagem de marca transmitir. E a primeira coisa que o marketing pessoal lhes exige é dizerem que são escritores. Contemporâneos. Os escritores contemporâneos não têm um estilo, têm uma imagem gráfica. Não têm assinatura: têm facebook e twitter, grupos de amigos e de seguidores, câmaras de eco. São modernos. São inexcedivelmente contemporâneos. Escrevem mal e têm poucas ideias, mas dizem e fazem coisas contemporâneas. E percebem imenso de coisas.
Uma dessas grandes figuras, referiu-se, durante uma entrevista radiofónica, aos seus próprios escritos como «a minha literatura».
Não teria mal nenhum... se quase não houvesse ninguém que troce ou se ria disto.