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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Virtuosismo

Desconcertante, audacioso e sem precedentes? Notas sem conta transmitidas no mais curto tempo possível? Um ribombar, soltado com entusiasmo? Isto soa a bravura pelo amor da bravura. Uma parte considerável do público agradecê-la-á com arrebatamento. Mas o estudo Romântico apontava mais alto. Desencadeado pelos Caprichos de Paganini, o tecnicamente novo e o nunca ouvido antes tinha de ser contrabalançado e justificado pela novidade musical, a coragem e a poesia. A seguir ao cume que são os estudos de Chopin, os de Schumann, Liszt e Brahms (Variações Paganini), bem como os de Debussy, Bartók e Ligeti, dão ao pianista a possibilidade de provar que, na sua interpretação, a música leva a melhor. O virtuosismo, a propósito, revela-se útil mesmo se não passarmos a maior parte das nossas horas de trabalho a lidar com estudos — na verdade, particularmente nesse caso.
Frequentemente, quando postos diante de sequências de escalas e sucessões rápidas de notas, os intérpretes não conseguem evitar tocar mais depressa. Há uma aceleração involuntária na interpretação de pianistas tecnicamente dotados — a menos que a sua musicalidade lhes fiscalize os dedos. Tocar demasiado depressa pode bem constituir um esforço físico menor do que cultivar uma disciplina que controle cada um dos dedos.


Alfred Brendel, A Pianist’s A to Z. A Piano Lover´s Reader, Faber and Faber, Londres, 2013.
 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A importância do amor pelos excêntricos

O que admiro na Inglaterra é justamente o sentido do indivíduo, o amor pelos excêntricos, mesmo que, por mim, nunca tivesse querido tornar-me um deles.

Alfred Brendel em Le voile de l'ordre, trad. de Olivier Mannoni, Christian Bourgois, Paris, 2002.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Memórias Intactas (2 de 7)

Chega-se a uma idade em que o casual e o deliberado se integram e se organizam no que somos, e desenham um destino descoberto e desdobrado como uma rota traçada pela nossa própria mão sobre um mapa. A idade de saber o que só a nós interessa saber. A idade de andar por estradas secundárias. De não esperar já ter razão.
A idade de ignorar aonde se vai, sabendo que iremos dar onde queremos ir. A idade de os livros comunicarem entre si. A idade em que um autor improvável nos revela outro autor que julgávamos conhecer. A idade de tudo o que sabemos que somos capazes de saber: a idade do sentido.
Um saber fundo de silêncio, de invisível travessia de palavras e paisagens. Percorrer com Liszt o Vale de Oberman (mas que vale, o abismal de Horowitz, menos íngreme em Arrau, mais meditativo em Brendel?) e ouvir o que só Turner poderia ter pintado — a idade de saber o que nunca saberemos. Sentir o sussurro sanguíneo do sobressalto no reconhecimento da grandeza estóica de Pedro Laín Entralgo quando escreve em homenagem a Luís Rosales que a dor, ou a memória da dor, exige que se viva à altura do coração — do coração limpo dos poetas que bate acima das diferenças de entendimento sobre a verdade e o bem. No vinho, perceber o travo da terra vermelha e rasa avistada na viagem, e saber que há uma relação entre uma coisa e outra. [continua]

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Memórias Intactas

Concerto para piano número um, em ré menor, de Brahms, por Radu Lupu: em momentos de assombro, reconheço-me, no momento exacto de os viver, humilíssimo e grato por me ser dado vivê-los.

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Brendel veio a Lisboa mostrar como só o véu da ordem torna possível a obra de arte, para usar palavras suas, retomadas de Novalis. Ordem: uma construção intencional e necessária.

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Palácio de Queluz, a última sonata de Beethoven na interpretação admirável de Grigory Sokolov. No âmago táctil da solidão mais indivisível reencontro o vago contorno de uma comunidade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

The unbearable inwardness of feeling

Só o véu da ordem torna possível a obra de arte, afirmou um dia Alfred Brendel, retomando palavras de Novalis.

Ouço, com indescritível emoção, os seus dois concertos de despedida, gravados em 2008, um em Viena, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Sir Charles Mackerras, e o outro um recital a solo, em Hanôver. Sobre eles escreveu, com toda a razão, Nicholas Kenyon no Guardian que «the deliberately un-virtuosic repertory carries an almost unbearable inwardness of feeling».
E vale a pena observar que o grande intérprete de Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert, depois de interpretar Haydn e Mozart, Beethoven e Schubert, fechou a sua carreira com uma peça de Bach: Nun komm, der Heiden Heiland Agora vem, Salvador dos Gentios.

sábado, 30 de outubro de 2010

Música e silêncio

... o silêncio, em música, permanece uma noção importante, não apenas no silêncio das pausas, mas como o fundamento da música em geral, para fora do qual ela nos conduz e ao interior do qual nos reconduz.

Alfred Brendel, Le voile de l'ordre. Entretiens avec Marin Meyer, trad. Olivier Mannoni, Christian Bourgois Éditeur, 2002.