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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

in memoriam

Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte? O «tudo está bem» de Kant, ou o «mais luz» de Goethe, ou o «amanhã o que virá» de Pessoa, ou até mesmo, à maneira de Sócrates, o «tirem daqui as mulheres» de Herculano? À hora da morte devia-se era estar calado. E à medida que se lá vai chegando, era o que se devia apetecer. E daí que talvez o não se perder a fala, mesmo em lamúria, é o sinal que resta de que ainda se está vivo. Mas se a coisa é a doer, fica-se quieto e calado, à espera. A grande verdade da vida é a morte. E um morto está sossegado. Como é que certos tipos têm o desplante de ter frases?

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand, Venda Nova, 1992.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O mais grave

O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos — é não termos já mesmo perguntas.

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand, Venda Nova, 1992.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Silêncio

O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand, Venda Nova, 1992.

terça-feira, 23 de março de 2010

Exilío e existência

Sentes-te exilado no teu país cultural. Óptimo. Mas também não sabes donde és. Às vezes, num intervalo parvo, pensas: deves lutar, impor-te, forçar os outros a reconhecerem que existes. Mas obrigar como? O resultado seria falso e colaboravas na hipocrisia. E terias de pôr velas aos que decidem da reputação e carimbam como comestíveis quem entendem, como a carne antes de vir para o talho. Sê sensato. Não é absurdo quereres à força ser gente? Arre, que é seres estúpido. E daí talvez não. Porque se o fosses, já há muito serias gente para os que te negam essa verdade elementar de seres também humanidade. Estás exilado no teu país -- mas donde és? Jamais o saberás. Porque se o soubesses, também não serias de lá.

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand, Venda Nova, 1992.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Reserva

Ama a vida, mas não o digas muito para se não supor que fazes propaganda médica. Ama-a intensamente mas com reserva como toda a mulher gosta de ser amada. E a vida é do género feminino. E dizer-se muito por fora o que se é por dentro é já sê-lo menos. Nessa diferença é que o hipócrita instala a sua tenda.

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand, Venda Nova, 1992.