Autarquia
Sou autárquico do ponto de vista literário e este grave defeito, este anacronismo, merece um castigo exemplar.
Julio Ramón Ribeyro, nota de diário (1956) em La tentación del fracaso, Seix Barral, col. Biblioteca Breve, Barcelona, 2003.
Sou autárquico do ponto de vista literário e este grave defeito, este anacronismo, merece um castigo exemplar.
Julio Ramón Ribeyro, nota de diário (1956) em La tentación del fracaso, Seix Barral, col. Biblioteca Breve, Barcelona, 2003.
Dei comigo a pensar que, de acordo com Empédocles, os quatro elementos primordiais da Natureza são o ar, a água, a terra e o fogo. Todos eles estão vinculados à origem da vida e à sobrevivência da nossa espécie. Com o ar estamos em contacto permanente, visto que o respiramos, o expelimos, o climatizamos. Com a água também, dado que a bebemos, nos lavamos com ela e fruímos do prazer de nadar ou de andar de barco. Com a terra igualmente, pois caminhamos sobre ela, cultivamo-la, modelamo-la com as nossas mãos. Mas com o fogo não podemos ter uma relação directa. O fogo é o único dos quatro elementos de Empédocles que nos arreda, pois a sua proximidade ou contacto faz-nos mal. A única maneira de nos relacionarmos com ele é através de um mediador. E esse mediador é o cigarro. O cigarro permite-nos comunicar com o fogo sem sermos consumidos por ele. O fogo está num extremo do cigarro e nós no oposto. O cigarro a arder é a prova de que esse contacto é estreito, embora seja a nossa boca que expele o fumo. Graças a essa invenção satisfazemos a nossa necessidade ancestral de nos religarmos aos quatro elementos naturais da vida.
Julio Ramón Ribeyro, «Só para fumadores», em A Palavra do Mudo, vol. I, tradução de Tiago Szabo, Edições Ahab, Porto, 2012.
O mundo não foi feito para as crianças. Por isso o contacto com ele é sempre doloroso, muitas vezes catastrófico. Se a criança pega numa faca, corta-se; se sobe a uma cadeira, cai; se sai para a rua, é atropelada por um carro. É curioso que, em tantos milhares de anos de civilização, não se tenha feito praticamente nada para mitigar ou solucionar este conflito. Inventaram-se os brinquedos, é certo, que são um mundo em miniatura, à medida das crianças. Mas estas aborrecem-se dos brinquedos e, por imitação, querem constantemente usar as coisas dos adultos. Com que determinação e espontaneidade se precipitam para a idade adulta, que obstinação a sua em imitar os mais velhos. E à custa da dor, aprendem. A condição para progredirem é, justamente, estarem em contacto permanente com o mundo adulto, imenso, enfadonho, desconhecido, doloroso. O ideal, claro, seria que vivessem num mundo à parte, acolchoado, sem facas que cortam nem portas que trilham os dedos, entre crianças. Mas então não evoluiriam. As crianças não aprendem nada com as crianças.
Julio Ramón Ribeyro, Prosas Ápátridas, Edições Ahab, Porto, 2011.
A nossa vida não é mais do que a evolução em volta de uns quantos objectos.
Julio Ramón Ribeyro, nota de diário (1973) em La tentación del fracaso, Seix Barral, col. Biblioteca Breve, Barcelona, 2003.
Agradam-me as pessoas que têm dificuldade em se expressarem porque são elas as que fazem, no decurso de uma conversa, os melhores achados. Dos que falam facilmente, pelo contrário, não podemos esperar outra coisa senão um discurso razoável, rotineiro ou previsível. O lento, o vacilante a expressar-se surpreende-se a si mesmo e surpreende os demais. O seu esforço, quando é inteligente, dá sempre frutos. Pode falar-se neste caso de uma «conversação criadora».
Julio Ramón Ribeyro, nota de diário (1958) em La tentación del fracaso, Seix Barral, col. Biblioteca Breve, Barcelona, 2003.
Como têm de circular os objectos numa casa até encontrarem o lugar que lhes convém! Estamos há poucos anos na Place Falguière, e já cadeiras, candeeiros, quadros e estantes têm sido protagonistas de um périplo fatigante, que os leva de divisão em divisão e de recanto em recanto. Alguns, é certo, adaptam-se com facilidade e acabam por conviver pacificamente com os seus vizinhos. Outros, os insociáveis, os proscritos, não encontram posição nem lugar e circulam sem descanso de um espaço para o outro, sem lançar amarras em sítio nenhum. De uma maneira ou de outra, a contragosto, acabam às vezes por aceitar um desvão e ali levar uma vida que eu imagino plena de desconforto e de ressentimento. Mas há também os incorrigíveis, aqueles que não transigem em nada e que, como castigo pelo seu espírito subversivo, são enclausurados no fundo de uma gaveta ou na escuridão de um sótão. Objectos terríveis, condenados, que devem estar a tramar em silêncio alguma vingança atroz.
Julio Ramón Ribeyro, Prosas Ápátridas, Edições Ahab, Porto, 2011.
Quem sabe que eu cultivo o gosto da literatura fragmentária, avisou-me da publicação de Prosas Apátridas (Edições Ahab). É esse o único marketing que funciona comigo. Descobri assim Julio Ramón Ribeyro. É bom redescobir que há autores por descobrir e que acrescentam alguma coisa ao universo literário que elegemos. E é muito bom que ainda haja editoras capazes de nos fazer descobrir autores e livros como este, para mais em edição cuidada, que contrasta com o descuido generalizado a que assistimos. Mas descobrir um autor, neste sentido electivo, é desencadear um processo de aprofundamento e de leitura de outros livros seus, tornando-o eventualmente um dos nossos autores e em relação com eles. E, nesse caso, o prazer da descoberta reside também em descobrir o que já sabíamos. É esse processo (biográfico) que, no âmago, entra naquilo a que chamei relação íntima com os livros.