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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Filho do Guardião dos Órfãos

Se a literatura é uma ficção que nos fala de uma verdade mais profunda, sinto que o meu livro é um retrato muito exacto sobre como os princípios do totalitarismo devoram as coisas que nos tornam humanos: liberdade, arte, escolha, identidade, expressão, amor. E devido ao facto de poucas coisas acerca da Coreia do Norte serem verificáveis (para além de imagens de satélite e de testemunhos de desertores), isto parece ser um reino no qual o alcance imaginativo da ficção literária é o nosso melhor instrumento para descobrir a dimensão humana de uma sociedade tão fugidia.

Adam Johnson, autor de The Orphan Master's Son, em conversa com o editor David Ebbershoff.
Publicado pela Saída de Emergência em Janeiro de 2014 com o título Vida Roubada.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Boas notícias por más razões

Multiplicam-se as notícias de que as narrativas breves conhecem hoje um aumento de popularidade.
Não há muito tempo, os editores lamentavam-se de que a publicação de livros de contos se tornara impossível, pois não havia procura. Os livros não se vendiam.
Também eu lamentei a menorização do conto relativamente ao romance. A arte do conto é, a muitos títulos, bem mais difícil do que a do romance: a brevidade exige um domínio absoluto dos meios. A imperfeição que perdoamos no romance, no conto pode ser imperdoável.
Como se dizia alguém no fim de uma longa carta a um amigo, «desculpa, mas não tive tempo de escrever menos». Escrever menos exige mais tempo, mais técnica, mais concentração, mais densidade.
Porém, as tais notícias acrescentam que a narrativa breve se impôs de novo devido à internet e fica implícito que isso se deve às necessidades de escrita (e de leitura, digo eu) impostas pelos mecanismos oferecidos por este meio de produção e difusão.
Que haja um renascimento do interesse pela história curta, é bom. Mas é preciso não esquecer que ela exige também uma maior concentração da parte do leitor. Ler um aforismo, um fragmento, um micro-conto, uma ficção breve não demora um instante. Bem pelo contrário.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prospectiva

1.
It's going to be cultic... Always people will be reading, but will be a small group of people ...maybe more than are reading latin poetry... but somewhere in that range.

2.
To read a novel requires a kind of concentration, focus, devotion to the reading..., (...) that kind of concentration, focus, attentiveness, it's hard to come by, it's hard to find...

3.
... I don't think the Kindle will make any difference to what I'm talking about...

Philip Roth em entrevista

terça-feira, 14 de junho de 2011

A História e a Literatura

(a propósito do romance O Forte, de Bernard Cornwell, Saída de Emergência, 2011)

Na sua génese romântica, o romance histórico teve sobretudo a função de fixar lendas e heróis, construindo um imaginário sobre um passado remoto e fundador, e por isso identitário. Esta acção durou muito para além do romantismo estrito e prova disso é a frase de John Ford: entre a lenda e a realidade, registe-se a lenda. Mas, desde essa época, o romance histórico tem percorrido todas as gradações e revestiu formas e propósitos variados, alargando, ou até dissolvendo, as suas fronteiras.

Em O Forte, de Bernard Cornwell, reencontramos o romance histórico num quadro muito curioso. Desde logo, pelo facto de o episódio que narra ser pouco conhecido. Trata-se da «Penobscot Expedition», cujo desfecho é descrito como a maior derrota naval americana antes de Pearl Harbor. Estamos em 1779 e, em traços muito gerais, o contexto é o da tentativa de os Britânicos lançarem as bases de uma nova colónia numa América que vivia os fervores revolucionários da independência.
Cornwell mantém-se muito perto da evolução real dos acontecimentos e dos seus protagonistas, apoiando a narrativa em testemunhos e documentação diversa. A primeira função deste romance histórico não é o de fixar uma lenda, nem apenas o de recriar um ambiente, nem o de preencher pela imaginação as lacunas de uma realidade imperfeitamente conhecida. É, creio, a de reconstituir com fidelidade um episódio, cujos contornos são pouco conhecidos do público, e através dessa reconstituição tomar uma posição num contexto de revisionismo histórico e de leitura política desse mesmo episódio. Essa reconstituição deverá ser uma clarificação e, nessa medida, o romance – aliás competentemente construído –  é, a seu modo, também um romance de tese e um romance de intervenção.
Mas, a meu ver, O Forte tem ainda outros motivos de interesse. É que, na operação de clarificar e dar um sentido à realidade histórica, permitindo uma reavaliação de certas figuras à luz dos factos, Cornwell faz ressaltar aspectos que abalam fortemente uma personagem lendária da revolução americana: Paul Revere. O curioso é que o seu estatuto lendário fora-lhe conferido literariamente, através de um célebre poema de Henry Longfellow, ainda no tempo em que a poesia tinha o poder de fabricar mitos. Longfellow era neto de uma outra personagem importante do romance, o segundo comandante da expedição, Peleg Wadsworth, que foi, por sua vez, testemunha directa dos comportamentos indignos e cobardes de Revere. Como diz Cornwell numa importante nota final ao romance: «Peleg Wadsworth teria ficado horrorizado, mas, como seguramente ele sabia melhor do que a maior parte dos homens, a história é uma musa inconstante e a fama a sua injusta descendente».
Percebemos, no final do livro, que existe toda uma bibliografia sobre a expedição e os seus protagonistas, envolvendo sobretudo a história do Massachusetts. Mas não deixa de ser significativo que a recolocação dos factos no seu devido lugar se afirme também no plano literário. Já não pela poesia, que perdeu esse poder e esse estatuto, mas pelo romance, que é ainda um lugar onde se fazem e desfazem lendas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Carta de Stefan Zweig a Hermann Bahr

Salzburgo, 21 de Dezembro de 1929
Meu caro Senhor

O seu romance foi recebido com alegria, logo exumado da imensa entrega do Natal, e li-o imediatamente com paixão. É verdade que poderia discutir longamente consigo sobre o facto de não se poder dizer que ele seja verdadeiramente um romance, uma vez que a gente que lá aparece não evolui na sua maneira de ver as coisas, porquanto a essência do romance me parece residir na transformação das personagens e da sua percepção das coisas por acção dos acontecimentos externos e internos. Mas tudo isso não passa de uma questão de palavras, e devo dizer-lhe que tive um imenso prazer em descobrir a limpidez da sua apresentação, a inteligência dos diálogos, que dá uma imensa vontade de os ver representados em palco. -- Porque bastaria apenas um nada para transformar estas personagens, de contornos muito nítidos, numa peça de teatro, e nela teríamos a «comédia austríaca» por excelência, e atribuo sem hesitar o papel da princesa Uldus a Auguste Wilbrandt-Baudius. Que personagem, essa princesa! Conseguiu pôr nela alguma coisa de que a maior parte das pessoas não quer ouvir falar: tornar a velhice amável aos nossos olhos, e dar-lhe o brilho espiritual das coisas antigas e preciosas. Coloque-a num palco, num palco!, e dê-nos, em compensação, uma intriga um pouco mais animada! A nossa época quer movimento, mais do que nunca. Pense no diálogo com o prelado! Não sou fanático do teatro, mas você nunca escreveu, até aqui, um final de acto como o da página 111! Para que a peça seja a encarnação da Áustria, falta-me ainda ali qualquer coisa que se torna cada vez mais um elemento crucial: a corrupção que cresce como a as ervas e não cessa de dar novas flores de aroma bastante pouco agradável. Junte, então, ainda, uma boa dose dessa corrupção, não demoníaca, mas desordenadamente desajeitada; um pouco mais de tensão e eis o romance, infelizmente um pouco insuficiente, transformado em peça de teatro. Reflicta, caro e venerado mestre, e ponha em movimento as suas mãos aguerridas! O teatro, entre nós, foi tão abandonado por Deus e pelo espírito que seria maravilhoso que um demiurgo da sua qualidade pusesse em marcha o motor gripado.
Não sei se virei a encontrar um lugar onda possa dizer publicamente uma palavra sobre o seu livro, mas, em todo o caso, tenho a intenção de lhe apertar a mão daqui a pouco tempo e de, em breve, me apresentar em sua casa. Espero não ser importuno.
Sinceras saudações à Senhora

O seu fiel
Stefan Zweig
Carta a Hermann Bahr, datada de 21 de Dezembro de 1929, reproduzida em Stefan Zweig. Correspondence, 1920-1931, edição estabelecida por Knut Beck e Jeffrey B. Berlin, trad. de Laure Bernardi, Le Livre de Poche biblio, Grasset, 2005.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Os sonhos

Ovídio, personagem de Vintila Horia em Deus Nasceu no Exílio, romance de um exilado sobre outro exilado, romance de um tempo de espera escrito num outro de esvaimento, que cumpre com escrúpulo os critérios de privação e amargura de que falava Morand*, diz a dado passo: «os sonhos também me envelhecem».

*«un vrai roman s’écrit avec ce qui nous manque, avec ce qui nous fait souffrir.»

quinta-feira, 25 de março de 2010

Barbershop, o romance

Se A Brilhante, ao arrancar, tinha contado com o alvoroço saudável dos amigos de Diamantino Neto, que nele viam o homem que soubera conquistar a pulso o seu território, e que lhe quiseram render preito de fidelidade no momento exacto da sua chegada ao cume, a Sabiá arrastou gente, mas não de imediato, graças ao choque provocado por transformações radicais que não pouparam, sequer, o nome da barbearia. Ao Corte Superior foi dramaticamente substituído por Sabiá. O letreiro luminoso, que na véspera da abertura fora destapado e exposto à bisbilhotice geral, acresentava à nova designação da loja um apêndice perturbador: Barbershop.

Júlio Conrado, Barbershop, Editorial Presença, Lisboa, 2010, p. 138.