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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Imprudência gramatical - 2

Em português, como se sabe, substituímos o futuro pelo presente. Ninguém diz «Para o ano tirarei férias em Agosto» ou «Amanhã irei ao cinema», mas sim «Para o ano tiro férias em Agosto» ou «Amanhã vou ao cinema». Ninguém usa o futuro, sobretudo na primeira pessoa, e suponho que literariamente também deva ser cada vez mais raro. Há muito que os linguistas e os gramáticos deram por isso, tal como deram pela substituição sistemática do condicional pelo pretérito imperfeito. Mas, se Karl Kraus tinha razão e a decadência da linguagem é o primeiro sinal de todas as outras decadências, então esta anulação do futuro no quotidiano pode ter um significado simbólico e podemos até imaginar que ela reflectiu e anunciou o caminho que nos trouxe ao lugar onde chegámos. É paradoxal que o Futuro constitua um dos pilares de todo o discurso político? Talvez isso até explique alguma coisa. Buzzati sublinha a maior ductilidade da fórmula inglesa. Mas também nós achámos o modo de mitigar a assertividade do presente: «Para o ano estou a pensar tirar férias em Agosto» ou «Amanhã estou a pensar ir ao cinema». É verdade que aí se expressa uma intenção, mas a vontade, no banho-maria da incerteza, dilui-se.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Limpeza étnica

É bem sabido que os que pretendem «aperfeiçoar» o Homem acabam sempre por ser tentados a destruí-lo por não lhe suportarem o maior defeito: a sua condição humana. Por isso, em presença daquela espécie é preciso estar sempre com um olho no burro e o outro no cigano.
Ah! A propósito de cigano: as limpezas étnicas podem, por vezes, começar pelos dicionários.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O triunfo do sangue

A expressão inglesa I can’t help myself e a insuficiência expressiva da sua tradução para português. Não é intraduzível, claro, mas a tradução fica sempre aquém da força literal e metafísica do original: não temos nada tão comum e simultaneamente tão forte para designar o triunfo do sangue, líquida forma de destino, sobre a razão ou a vontade. Resulta esta derrota da nossa natureza e de uma ingente e ingénita helplessness: impotência? fragilidade? desamparo? abandono?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dia de Camões?

Tenho-o dito, em várias circunstâncias. A língua é uma pátria longínqua. Perdida na sua própria grandeza, estreitou-se. A vigorosa variedade vernacular cedeu às pressões do uso comum, da preguiça comum, da ignorância comum e do comum descaso. De tal modo que, para o leitor comum, os clássicos se tornaram ilegíveis.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Língua corrente

«A fraude cultural tem aumentado mais o distanciamento do público em relação à arte da palavra do que em relação a outras artes, porque, seguramente, não se reclama saber pincelar as cores que alguém pinta, nem saber assobiar as áreas que alguém compõe, mas reclama-se sim, saber falar a língua que alguém escreve. E, apesar disso, e justamente por essa razão, saber-se-ia pincelar e assobiar ainda melhor. Vive-se de tal modo distante da língua que se crê, porque se sabe falar, saber falar. O respeito por ela seria muito maior se houvesse uma pintura corrente e uma música corrente, de modo a que as pessoas pudessem, por assobio ou pincelagem, contar o que comeram hoje.»
Karl Kraus
Nachts
(traduzido da edição francesa, La Nuit Venue, Éditions Gérard Lebovici, 1986)