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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O nexo e o valor

O domínio do «contemporâneo», palavra angulosa repetida adjectivamente como valor substantivo, não me parece valer por si mesmo, sobretudo se aparecer como mera fórmula ritual do culto da novidade, do «emergente». Resume, afinal, todo um dispositivo de legitimação, e significa, no fundo, que a arte destes tempos multiplica novas ordens estéticas, exclusivas, que procuram estabelecer, elas próprias, os termos por que devem ser vistas ou avaliadas. Os artistas mais pressurosamente «contemporâneos» delimitam um espaço e colocam-se no centro dele, onde as instâncias «contemporâneas» os possam ver.
De tudo isto, retenho apenas, para uso pessoal, que o artista contemporâneo enfrenta ou afronta as possibilidades da continuação da arte, que esta precisa de indagar e prosseguir caminhos de continuar a ser arte, radicalmente radicada numa individualidade artística, qualquer que seja o suporte material que utilize, qualquer que seja mesmo o seu grau de materialidade.
Do meu ponto de vista, a individualidade artística distingue-se pela consistência estética das obras e pela personalidade artística que elas, voluntariamente ou não, revelam — cultura, memória, inteligência, densidade, gosto… Alguma coisa mais do que a mera afirmação ou a pura intenção, nexo talvez necessário, mas não valor suficiente.
(excerto)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Contemporâneos

«Ceux qui coïncident trop pleinement avec l'époque, qui conviennent parfaitement avec elle sur tous les points, ne sont pas des contemporains parce que, pour ces raisons mêmes, ils n'arrivent pas à la voir. Ils ne peuvent pas fixer le regard qu'ils portent sur elle.»

Giorgio Agamben
Qu'est-ce que le contemporain?

sábado, 2 de janeiro de 2010

Contemporâneos

Sempre um pouco ofegantes do esforço de não se perderem do passo dos tempos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Escritores

Os escritores, antes, tinham uma reputação. Literária, antes de mais. Antes da outra. Os escritores agora são uma marca. A sua reputação é o que a sua imagem de marca transmitir. E a primeira coisa que o marketing pessoal lhes exige é dizerem que são escritores. Contemporâneos. Os escritores contemporâneos não têm um estilo, têm uma imagem gráfica. Não têm assinatura: têm facebook e twitter, grupos de amigos e de seguidores, câmaras de eco. São modernos. São inexcedivelmente contemporâneos. Escrevem mal e têm poucas ideias, mas dizem e fazem coisas contemporâneas. E percebem imenso de coisas.
Uma dessas grandes figuras, referiu-se, durante uma entrevista radiofónica, aos seus próprios escritos como «a minha literatura».
Não teria mal nenhum... se quase não houvesse ninguém que troce ou se ria disto.