Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio D'Ors. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio D'Ors. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Memórias Intactas (7 de 7)

Naquela janela de angélica luz o Tempo parece anular-se. Quando por fim consigo partir, chega a notícia de que o museu vai fechar. Já não tenho tempo senão para um breve relance sobre a Descida da Cruz — outro tema constante, de incessante variação —, de Rogier Van der Weyden, um monumento de composição cenográfica. Mas tenho de sair. Estive no Museu, não as três horas de don Eugenio, mas pouco mais de uma. Foi melhor assim. Chega-se a uma idade em que percebemos que se deveria ir aos museus ver apenas um quadro de cada vez.

Chega-se a uma idade em que aprendemos até nos livros que se não leram*.



*Alguns dias depois de escrever este texto, a pessoa a quem ele foi dedicado pôs-me nas mãos o livro que eu não soubera encontrar. Da sua leitura posterior retenho aqui esta passagem: «El amigo se contentará, pues, con una estación ante la tabla de La Anunciación, del Beato Angélico. Prolónguela, la estación, tanto como pueda.»

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Memórias Intactas (1 de 7)

Chega-se a uma idade em que deambulamos secreta e livremente por territórios intangíveis. Nomes que se associam, cores e sons que se contaminam, versos que lembram outros versos, ligações, enlaces, a «sintaxe interior em que se traduz a mais alta função da inteligência» de que Eugenio d’Ors fala num texto remoto, publicado em 1948, por ocasião do primeiro centenário do caminho-de-ferro espanhol (Mente y tren. Confesiones de un viajero en ferrocarril).
Foi como historiador de arte que primeiro conheci o escritor catalão, um dos que mais contribuiu para a reavaliação da estética do barroco, defendendo o princípio polémico da sua constância histórica e retirando-o da «galeria de horrores» onde o neoclassicismo o tinha enclausurado. Ignorava ainda como, no Glosario, tinha empreendido a elevação da anédocta a categoria. Desta vez, na cinzenta manhã madrilena, procurara em vão a sua proposta de Tres horas en el Museu del Prado. Sem esse pessoalíssimo guia, e numa dessas tardes de chuva inaugural em que as cidades cedo correm, céleres, para casa, tornando mais evidente o desabrigo de quem anda na rua, o Prado ficou mais longe, mais penoso o caminho e mais curta a visita. [continua]

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Banho e duche

-- Têm banho?
-- Não. Mas temos duche.
Não é o mesmo. Para efeitos de limpeza, pode ser. Mas, para o asseio, de maneira nenhuma.
O banho conforta. O duche sacode. Pode também refrescar, nesta sacudidela. Mas, não pode fazer o que deveríamos chamar sempre, no sentido antigo e clássico da palavra: «desalterar», apaziguar.
Clássico, no sentido genuíno, quer dizer, no sentido ecuménico. Não se trata de um casticismo. Aos gregos, o vinho apaziguava-os, ao passo que, aos românticos, os altera sempre. É bem verdade que aqueles, Anacreonte incluído, deixando de parte bacanais saturnais e outros excessos, parece que, em boa companhia, o bebiam habitualmente aguado. E eram tão sensíveis, segundo se diz, à sua virtude, que parece que a bebida, tirada de uma ânfora de água, ainda que tivesse contido vinho, bastava para lhes provocar uma exaltação risonha.
Do banho, sai-se com vontade de comer. Do duche, sai-se com vontade de fumar.
Há também leituras com o efeito do banho, e, outras, com o efeito do duche. Gostaria que as minhas páginas pertencessem a esta categoria.
Que palavra formosa: «asseio»! O asseio aproxima da asseidade...
Os meus colegas entenderão perfeitamente o que quero dizer.... Digo eu, a não ser que, dos dois termos, ignorem um deles.

Eugénio D’Ors, Último Glosario, Vol. V – El Guante Impar, Editoral Comares, Col. La Veleta, Granada, 2002.