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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O mau leitor

O que faz com que a vida se materialize e seja materialista é o mau leitor, que chega a crer que merece viver porque vive.
(...)
Assim como um grande matador diz que ao toureiro não é o touro que o mata, mas sim o público, o mesmo se passa com o bom escritor.
Antes, o público secundava o escritor, mas agora pretende-se que o escritor secunde o público. Por isso, quando se grita «idiota» no meio da multidão, todos viram a cabeça.
A maior parte da literatura de êxito é a literatura de manjedoura, palha para ruminar.
É o mau leitor que, ao comprar livros, quer levar para sua casa a história e o segredo da criação, quando na realidade apenas leva um montão de mexericos, como se tivesse exercido sobre si mesmo o ardil do português.

Ramón Gómez de la Serna, «El mal lector y el buen lector», Escritos del desconsuelo (1947-1961), Escritos autobiográficos - II, Obras Completas vol. XIV, ed. Ioana Zlotescu, Círculo de Lectores/Galaxia Gutenberg, Barcelona, 2003, pp. 900.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Dez greguerías

Aquele tipo tinha um tique, mas faltava-lhe um taque: por isso não era relógio.

A sopa das grandes casas senhoriais sabe às luvas do criado que a serve.

«Pão» é uma palavra tão breve para que possamos pedi-lo com urgência.

O sonho é um depósito de objectos extraviados.

No fundo dos espelhos há um fotógrafo escondido.

Era um pintor tão velho que os pincéis tinham ficado calvos.

Escrever com lápis é marcar apenas as sombras das palavras.

A água não tem memória: por isso é tão límpida.

Os aplausos são como as costoletas: muito osso e pouco que comer.

O pássaro, para que a pomba o deixe comer, tem de a fazer acreditar que é seu sobrinho.

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías. Selección 1910-1960, Editorial Optima, col. Odisea, 10.ª ed., Barcelona, 1997.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Memórias Intactas

para Juan e Belém, visitantes deste blogue

Entrei na livraria com o único propósito de fazer tempo.

Um livro despertou-me a atenção, um álbum sobre Alfonso Sánchez García: Alfonso, o fotógrafo. Na capa, don Ramón María metido na sua personagem. Nas suas páginas, rostos de uma Espanha que me fala.

Toureiros: Juan Belmonte, Manuel Granero – ainda no espanto de ter morrido –, Domingo Ortega. Um enquadramento extraordinário: Joselito espera, sentado, a três passos do touro, que este sucumba; o touro, de pé, espera, paciente, que a vida se lhe esgote; os peões esperam, agrupados à distância, imóveis e atentos; o público, de pé, espera, suspenso do triunfo da morte, o triunfo do toureiro.

«Homenaje a don Nadie», em 1922, greguería ao vivo de Ramón Gómez de la Serna, com Madariaga, Bergamín, Ramón María del Valle-Inclán e outros em volta de um cadeirão vazio. Gómez de la Serna no seu habitat do café del Pombo. Os Machados, desde o início dos anos 20; Antonio, em 1933, à mesa do café de las Salesas, chapéu e bengala, no seu entranhado desalinho de poeta. Unamuno em 1935, com o garbo de quem «A un pueblo de arrieros,/ lechuzos y tahúres y logreros/ dicta lecciones de Caballería», segundo os versos do próprio Machado.

Marañon, Ortega, López de Ayala. Mas também García Lorca e Albertí: a geração de 27 entrando em cena. José António em uniforme hussardo. O corpo dilacerado de Calvo Sotelo desatando a Guerra Civil. Pío Baroja, Buero Vallejo, o compositor Cristóbal Halfter, Cela. As mãos encanecidas de Azorín, mãos de artesão da prosa «sóbria, desferida em pequenas guinadas», encastoada de «recortes de bons autores, pinceladas de paisagens, velhos trastes, pequeninos nadas esmaecidos pelo tempo», como tão bem disse João Maia.

Afinal, em vez de fazer tempo, encontrei um tempo desfeito.