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terça-feira, 7 de junho de 2011

A diferença

Distante e discreto, um poema de Alberto de Serpa (dedicado a Pessoa) incluído num livro oferecido «a Jorge de Lima, grande poeta do Brasil», edição presencista dos anos trinta, tem um verso penetrante: «O poeta é independente. Só ele sabe.» Esta defesa da autonomia do poeta tem um lugar na época em que foi escrita, como sabe quem conhece as batalhas do segundo modernismo, que aliás saía a terreiro para defender o primeiro. Esta singularidade do saber do poeta (particularmente a natureza desse saber) está na base de uma altivez, só plenamente compreendida sobretudo por outros poetas. Porém, como toda a gente não se cansa de dizer, o mundo mudou, e esta defesa também serve hoje, implicitamente, muitas vezes, para justificar o desvario e o disparate. Mas o mesmo poema de Alberto Serpa também declara com lucidez «a poesia não está nos assuntos poéticos»: «a poesia está no poeta». E isso continua a fazer toda a diferença.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Alegrias rápidas

Alegria achareis neste meu poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se

conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doendo,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;

ou como sente os membros do seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.

São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão

Jorge de Lima em Invenção de Orfeu, Livros de Portugal, Rio de Janeiro, 1952.