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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Retentiva

Que retorcidos que somos. Que sensatos parecemos ou nos mostramos diante dos outros e, no fundo, que retorcidos que somos. Que pouca coisa somos e de que maneira tão espectacular nos retorcemos perante nós próprios e perante os demais [...]. E tudo para quê? Para ocultar o quê? Para fazer crer o quê?

Azucena Esquivel Plata, personagem de 2666, de Roberto Bolaño.

sábado, 25 de setembro de 2010

Diário de leitura

«...experimentarn lo que era estar el purgatorio, una larga espera inerme, una espera cuya columna vertebral era el desamparo, algo muy latinoamericano, por otra parte, una sensación familiar, algo que si uno pensaba bien experimentaba todos los días, pero sin angustia, sin la sombra de la muerte sobrevolando...»

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Diário de leitura

Ainda a «parte dos crimes». O processo arcimboldiano de construção e aquilo a chamei anteriormente, aqui, o «realismo múltiplo» e expansivo de Bolaño pode tornar-se, em ocasiões, exasperante. Por vezes, parece que o autor perdeu a mão, ainda que não tenha perdido o pé; outras vezes, parece ter perdido o pé, sem que tivesse perdido a mão... o discurso da personagem Florita Almada é apenas um exemplo. Em contrapartida, há aspectos notáveis (a relação do polícia Juan de Díos Martínez com Elvira Campos, por exemplo) que vão equilibrando os pratos da balança.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Regresso ao diário de leitura

Depois uma pausa, mais ou menos forçada, regresso à leitura, aos textos e às anotações.
Neste período, não abandonei por completo a leitura do 2666, mas não avancei espectacularmente. Estou a terminar a quarta parte («La parte de los crímenes»).

Não direi, como o imperador austro-húngaro terá dito de uma composição de Mozart, numa frase frequentemente alvo de troça, que o romance de Bolaño tem palavras a mais, mas sem dúvida que não faz uso de uma «economia» narrativa. A narrativa, aliás, parece em constante expansão, transformando-se num manancial de histórias paralelas ou cruzadas, que se acumulam. Estratégia arcimboldiana por excelência, como desde o início me pareceu.

Este «modo narrativo» de Bolaño é simultaneamente uma estratégia e um «maneirismo», mas não um mero truque astucioso. A mim, que tenho especial gosto pela brevidade e pela tensão narrativa que ela exige, o processo parece por vezes excessivo e fastidioso. Porém, Bolaño é um escritor autêntico e faz-me andar por aqueles corredores cheios de bricabraque sem atirar nada ao chão.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Diário de leitura

A descrição sistemática de sonhos como técnica de estender a narrativa encanita um bocadinho. Não me parece que tornem as personagens mais densas, se o argumento for esse. Torna-se mais interessante, porém, do ponto de vista do «realismo múltiplo», que é a expressão que me surge (vide anotações de ontem) para nomear o modo narrativo de Bolaño. Nessa perspectiva, os sonhos vão de par com as outras realidades, isto é, constituem uma realidade como as outras. Ao lado das outras.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Diário de leitura

Archimboldi. Impossível não trazer à memória Arcimboldo e as suas composições vegetais e antropormóficas. Veremos se associação vem ou não a fazer sentido.

A figura do escritor «desaparecido», cuja ausência permite todas as divagações, mitificações e mistificações. A figura e o processo já estavam em Os Detectives Selvagens.

Referência a Jünger. Figura de patrício romano sobre quem muito se disse sem correspondência estrita com a verdade. O seu silêncio, só a espaços quebrado, o carácter retirado da sua vida alimentaram acusações e defesas, mistérios e mistificações. Poderia ser o modelo de Archimboldi. Mas, que eu saiba, a obra (o conjunto da obra) de Jünger não suscitou entusiasmos nem teses nas universidades. Até há bem pouco tempo seria impensável. Em que medida conheceria Bolaño a obra de Jünger?

Regressados da praia, ainda nos vamos refrescar e reclamar os últimos raios de sol para a piscina. Reina o maior silêncio. Uma família lê, estirada nas espreguiçadeiras. Cada um dos seus membros está virado para um sítio diferente. Uns levantam o livro à altura dos olhos, outros pousam-no no regaço. Têm um ar compenetrado, de quem realiza uma performance paciente ou cumpre uma missão. Lêem Murakami, Sousa Tavares, Kertész. A mãe lê Raquel Ochoa. Têm um ar sério e tristonho. Devem achar que somos bárbaros iletrados. Por mim, nunca acreditei muito na democracia da leitura.

Os tiques do mundo dos estudos universitários, o espírito de clã, o circuito dos congressos, das conferências e dos encontros. Nada de novo aqui. Curioso como alguns leitores publicamente entusiastas não se reviram no retrato.

Personagens muito bem lançadas na relação que estabelecem umas com as outras. Interessante a relação entre as velocidades, a do tempo e a da história.

O casal do outro apartamento também passa a tarde a ler, à sombra, ao lado de um pequeno estendal de calções e toalhas. Ele lê um jornal diário e outro desportivo, mas a maior parte do tempo faz palavras cruzadas e talvez o sudoku. Ela lê Júlia Navarro, A Irmandade do Santo Sudário. Têm uma «serpente» de espuma com ajuda da qual ele tenta, sem grande paciência, ensiná-la a nadar.

Ecos das intrigas do poder local. Dos poderes locais. A luta entre os organismos do Estado. Os braços de ferro das autorizações e das desautorizações. Na praia não se podem fazer festas com música ao vivo. Só com música gravada.

Hoje vi alguém na praia, uma turista estrangeira, pareceu-me, a ler um e-book. O aparelho era branco, o fundo do ecrã também, e faiscavam ambos ao sol.

As histórias laterais. Aparentemente laterais, porque parece não acrescentarem nada ao fio principal da narrativa. Mas trazem quase sempre alguma coisa: «El dolor, o el recuerdo del dolor, que en ese barrio era literalmente chupado por algo sin nombre y que se convertía, tras este proceso, em vacío. La conciência de que esta ecuación era posible: dolor que finalmente deviene vacío. La conciencia de que esta ecuación era aplicable a todo o casi todo».

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Diário de leitura (2666, de Roberto Bolaño)

Vai fazer por estes dias um ano que fui a Sevilha. Um dos pretextos foi a compra de 2666 de Roberto Bolaño, edição da Anagrama. Ao final do dia escaldante já estava(mos) de novo mergulhado(s) na piscina. Acabara de ler os Detectives Selvagens na tradução portuguesa e apetecia-me poder ler o muito anunciado 2666 no original.
Mas porquê falar disto agora? Porque comecei agora, um ano depois, a ler o romance. Podia tê-lo feito antes. Não o fiz. Preferi deixar passar a fase da histeria adjectiva, deixar assentar a poeira e sarar o prurido causado pela estridência das vozes e das classificações. Tenho sempre outras coisas para ler, não necessariamente a última novidade, como sabem os que passam por este blogue.
Bem. Achei que podia agora, calmamente, ler o livro. Ou, pelo menos, começar. E, tendo começado, surgiu-me a ideia de fazer aqui uma espécie de diário de leitura. Não um roteiro, mas anotações de teor diarístico a propósito ou a despropósito da leitura deste livro. Esse é o projecto, à partida.