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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Memórias Intactas

Sobre Ruben A. (excerto): o historiador abre caminho ao escritor com a publicação do primeiro volume de Páginas, a primeira das suas deambulações na primeira pessoa, testemunho do seu “inconformismo civilizado e limpo” (Luís Forjaz Trigueiros), prolongadas depois na autobiografia. Nelas se engendraria o novelista e romancista, que teve em Caranguejo o seu primeiro “exercício de arquitectura literária”. Tais exercícios, de evidente modernidade, apurar-se-iam na fantasia de O Outro Que Era Eu (1966) e no complexo polifónico de Silêncio para 4 (1973). Mas é em A Torre da Barbela (1964) que fantasia e polifonia se encontram com o seu «terrivelmente lúcido amor a Portugal» (id.), romance de singularíssimo recorte, inimitável e inimitado, alegoria surreal da História da nação portuguesa, escrito numa língua que sabe ser nova sem se arredar da antiga.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Memórias Intactas

Nos nomes das ruas de Paris cintila uma sonoridade romanesca que ecoa um universo de leituras, que, para a maioria dos leitores, parece hoje um universo perdido. Poder-se-á perder o que nunca verdadeiramente se teve?

terça-feira, 31 de maio de 2011

Memórias Intactas

As incursões biográficas ajudam a circunscrever a imaginação, a chamá-la aos factos, a contê-la em hipóteses. Porém, tudo o que não ficamos a saber, porque não podemos saber, permanece cativo de uma inquietação ainda maior. Em O Amor de Camilo Pessanha, António Osório desvenda duas personagens na delicadeza da renúncia mútua, sem evitar que a cintilação delas, reluzindo nas entrelinhas, se adense noutras agruras ou em indecifráveis ternuras da alma. Esse caminho, tão cuidadosamente percorrido, é ainda o caminho do escritor.

A voz de Camilo Pessanha a dizer os versos da Clepsidra a jeito de serem apanhados no papel, como borboletas na rede. Ditos de um jacto, há muito aprendidos, ou no transe declamatório cabia a improvisação, o arranjo do momento? Haveria hesitações, silêncios, constrangimentos? (Por onde vaguearia o olhar de Ana, como lhe variava a pulsação?) Tê-los-ia escrito alguma vez, os poemas, ou eram pura música, como de facto parecem, ainda sem relação com os sinais gráficos, com o cheiro da tinta, com a mancha no papel?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Memórias Intactas

Pouco antes [final de Maio de 2005] de saber da doença que em poucos meses a destruiria, C. escreveu-me: «Há poucos anos sentia-me uma pessoa moderna, mas já não. Pelo contrário, acho que sou muito antiga, e que não sou deste século. Nasci a meio do século vinte, vi tanta coisa, tinha tanta energia... Agora só quero ficar quieta. Gostaria de viver no meio de um jardim, com flores.»  Assim seja.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Memórias Intactas

Relendo as Memórias do Cárcere de Camilo na paisagem rendada do Minho, junto à margem portuguesa do rio. Um livro cheio de gente. Não como a gente que enche as ruas e as praças, com a qual nos cruzamos, gente cuja variedade e exotismo se fundem na ideia de multidão. A singularidade da gente que enche as páginas de Camilo, unida no destino, está na extraordinária lógica humana que a move e no pathos da língua que a faz reviver.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Memórias Intactas

Assisto, num documentário sobre os tibetanos Ladakhi, ao transe de uma sibila curandeira. Após a sessão, pacificada, declara ignorar se é bom ou mau o espírito que a possui, se as suas predições são verdadeiras ou se na verdade tem poderes curativos: só os que a consultam o poderão, eventualmente, dizer. Aos práticos da nossa medicina falta esta franqueza, esta humildade, esta sabedoria.

domingo, 22 de maio de 2011

Memórias Intactas

A pintura de Chardin. Interiores de uma intimidade burguesa e contida: do chá fumegante e solitário de Marguerite, a senhora Chardin, aos episódios domésticos da «acção de graças» e da «toilette matinal». O gesto melancólico de umaa bordadeira. Jovens, sobriamente contracenando com uma mesa, cadeira ou escrivaninha, estabelecem um diálogo mudo com objectos pequenos e comuns, talvez simbólicos: cartas, pião, lápis. A juventude e candura absolutas da espantosa menina da raqueta e do volante irrompem iluminadas de dentro (inquieto-me, porém, sempre que a admiro, com o que me leva a pensar em Balthus). Em Chardin, a surpresa não está no pormenor do desenho, mas na consistência do conjunto, na arquitectura do instante. Dominam os castanhos, os vermelhos, os brancos, alguns azuis. Absorto num quarteto de Haydn, detenho-me nas naturezas-mortas: cobres, vidros, porcelanas, madeiras. Caça, pão, vinho, frutos, mesas acesas por esplêndidos copos com água. O esfumado estojo do fumador. A irrecusável epifania de um cesto de morangos. Pintura de um mestre discreto, bem acomodada no seu século, nada tem que possa servir para incensar a modernidade. Mas a sua lição — que é também a da representação do silêncio —, suscita em mim uma simpatia absoluta.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Memórias Intactas

A casa caiada de um branco antigo. Na horta, as mãos perfumadas de hortelã-da-ribeira, coentros, conversas, poejos, lembranças. Um cesto de laranjas. A nudez opaca e branca do requeijão. O borrego pascal, esfolado, escorre o último sangue em remanso de sombra, na expectativa do pão e da sede. A Senhora de Guadalupe descerá em breve e, por entre casas brancas, de novo subirá à branca morada de onde, por dias de azeite e mel, vela os campos de Serpa.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Memórias Intactas

Concerto para piano número um, em ré menor, de Brahms, por Radu Lupu: em momentos de assombro, reconheço-me, no momento exacto de os viver, humilíssimo e grato por me ser dado vivê-los.

***
Brendel veio a Lisboa mostrar como só o véu da ordem torna possível a obra de arte, para usar palavras suas, retomadas de Novalis. Ordem: uma construção intencional e necessária.

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Palácio de Queluz, a última sonata de Beethoven na interpretação admirável de Grigory Sokolov. No âmago táctil da solidão mais indivisível reencontro o vago contorno de uma comunidade.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Memórias Intactas

Sobre Clarice Lispector: o seu universo ficcional desprende-se facilmente das circunstâncias em que cada história se ata, retomando-se em cada nova personagem, em cada nova implosão. Viagens para dentro e por dentro. Modos de conhecer. Não apenas introspecções, que é o acto de olhar-se, mas aprendizagens, que é o surpreender-se no acto de se olhar. Viagens que impõem uma ascese e uma metamorfose em direcção à vida e ao sentido dela, um crescimento, em que «a mais premente necessidade de um ser humano» é «tornar-se um ser humano». A linguagem surge num plano primordial da existência — ser pela palavra torna-se uma complicada e frágil condição. A sua obra encerra a sabedoria de quem fez todas as viagens com as suas personagens e concluiu, como a de A paixão segundo G. H. que «Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes»

(excerto de um texto publicado em Biblos-Enciclopédia das Literaturas de Língua Portuguesa, vol. 4, Editorial Verbo, Lisboa, 1999).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O nexo e o valor

O domínio do «contemporâneo», palavra angulosa repetida adjectivamente como valor substantivo, não me parece valer por si mesmo, sobretudo se aparecer como mera fórmula ritual do culto da novidade, do «emergente». Resume, afinal, todo um dispositivo de legitimação, e significa, no fundo, que a arte destes tempos multiplica novas ordens estéticas, exclusivas, que procuram estabelecer, elas próprias, os termos por que devem ser vistas ou avaliadas. Os artistas mais pressurosamente «contemporâneos» delimitam um espaço e colocam-se no centro dele, onde as instâncias «contemporâneas» os possam ver.
De tudo isto, retenho apenas, para uso pessoal, que o artista contemporâneo enfrenta ou afronta as possibilidades da continuação da arte, que esta precisa de indagar e prosseguir caminhos de continuar a ser arte, radicalmente radicada numa individualidade artística, qualquer que seja o suporte material que utilize, qualquer que seja mesmo o seu grau de materialidade.
Do meu ponto de vista, a individualidade artística distingue-se pela consistência estética das obras e pela personalidade artística que elas, voluntariamente ou não, revelam — cultura, memória, inteligência, densidade, gosto… Alguma coisa mais do que a mera afirmação ou a pura intenção, nexo talvez necessário, mas não valor suficiente.
(excerto)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Memórias Intactas

O proprietário de uma taberna de A Coruña, significativamente chamada «El Secreto», iniciou-me num vinho de pequena produção particular e, cúmplices, ali recuperámos um entendimento de séculos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Memórias Intactas

Mdina, Cidade do Silêncio, ilha de Malta. Ali o silêncio, para lá da sombra, era a luz sulcando o solo ou aclarando os traços tristes de um templo. Quis restaurá-la, crua e branca, em película, fechando o mais em negros. Mas só na pele ficou retida: afinal, descobri só depois, a máquina fotográfica não tinha rolo. Como recuperar o que não passou de possibilidade, conjectura de arquitectura? Como regressar a uma luz vislumbrada na luz que se viu? Perdida a conjunção e perdido o momento, nenhuma arqueologia ou experiência virtual falará da inexistência dessa fractura exposta do real, a imagem imaginada.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sobre a pintura de Francis Bacon

Espelho inquietante em que nos olhamos de frente e nos vemos de costas.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Memórias Intactas

Atravessei um dia a civilização vitícola do Alto Douro em busca da sua razão milenar. O esforço e a espera, imperativos impostos pela natureza e aperfeiçoados pelo homem. Não há, nunca houve, caminhos fáceis: à conquista sucede a submissão. Rés ao rio, testemunha principal, é o próprio tempo, matéria infusa da transfusão cósmica, que erguemos no cálice ritual.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Memórias Intactas

Entrei no restaurante do Trastevere como numa comédia de Risi. Em meio de um Agosto sufocante, a mulher que me atendeu lamentou, profusamente, o mau funcionamento do frigorífico. Insisti, apesar disso, num vinho branco e corpulento. O serviço foi atribulado, os scalopini al gorgonzola excelentes. No fim, estenderam-me, num gesto largo, liberal e moscovita, uma garrafa de limoncello e, em alternativa, uma grappa de frutos silvestres. Bebi, sem pudor, de ambas. À saída, encontrei um grupo de residentes brasileiros e, exuberantes, juntos saudámos Roma, a bela, e a Língua portuguesa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Céus

Não existe um céu, existem céus. Invocamo-los, para eles erguemos o rosto, deles sentimos a leveza ou o peso, neles buscamos. Mas compreender, talvez só compreendamos os céus pintados, céus matéricos, anuviados, acrílicos, rugosos, fendidos por cores, falsos — reais.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Memórias Intactas

Meditei durante anos, de fora, a pequena casa de um piso onde Cesário terá morrido, ao Paço do Lumiar, no limiar da cidade, fronteira da febre. Quintas e quintais, o ar desflorido de Julho, o calor macio das sombras. O largo. O desplante teimoso da capela. Casa adentro: quartos escuros, móveis simples, passos leves, sustido tinir de louças, perfumes de sabão e de legumes, melancolia, fruta fresca, cesário verde. Campos em farrapos amainando, desolados e chãos, mal deixam adivinhar as maquinações de um futuro delírio fabril e triunfal. Depois, despenhado de altos andaimes, o sonho de vidro transparente que parecia poder conter a dor humana e talvez tocar o céu, tombou, longitudinal e sem glória, alongando além de si a cidade, desaguando em ocidental desencanto por tristes cafés de subúrbio.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Memórias Intactas

Um homem no cais da estação do metropolitano. O fato impecável sublinha-lhe o aspecto cuidado, a silhueta clara. Na carruagem, fica de pé junto à porta do lado oposto à da entrada. Duas mulheres de condição humilde, acolchoadas contra o frio, rosto rude, acomodam-se de frente para ele. A proximidade é desconfortável. Disse uma delas, para sair do desconforto:
– Nice tie...
O rosto dele abriu-se num sorriso sóbrio.
– Thank you... Do you think so?
– Yeah – respondeu ela com um aceno de cabeça, observando, um segundo depois: – You work downtown.....
– Yeeeah... – confirmou ele.
– Tired? – quis ela saber.
Ele encolheu os ombros, sem desmentir. Elas sairam pouco depois, despediram-se:
– Bye!
– ‛night... bye! – ecoou ele, caloroso. Saiu umas estações mais adiante.
Vieram-me à cabeça os versos de Álvaro de Campos que Ruben A. usa como epígrafe de Caranguejo: «O florir do encontro casual dos que hão sempre de ficar estranhos».
Prevenido contra a fria impessoalidade das grandes metrópoles, onde ninguém se conhece, saí para o vento cortante da noite nova-iorquina a pensar como, na pequena Lisboa, aquele diálogo seria tão completamente impossível.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Memórias Intactas/ leituras

Belle du Seigneur*, o romance enorme e perturbante de Albert Cohen penetra o reverso da candura romântica e dos sentimentos idealizados, um olhar implacável sobre a paixão, os seus delírios e convulsões. Sinuoso, íngreme, inóspito, terrível, desenrola-se muito mais no interior das personagens do que nos lugares onde estão ou por onde passam. Difere em tudo isso de tantos romances, talvez estimáveis alguns, que por aí se fazem a régua e esquadro.

*Publicado em tradução portuguesa pela Contexto, há muitos, muitos anos. Quem ousará publicá-lo de novo?