Para um Manual de Auto-Ajuda (25)
Não pintes
a manta,
nem bordes
o avental.
Inventa
um mantra
que te sirva,
e te livre
de servir.
Não pintes
a manta,
nem bordes
o avental.
Inventa
um mantra
que te sirva,
e te livre
de servir.
Por hábito, o
poético satura;
e o hálito retórico
do hábito poético
não se atura:
para fazeres poesia
gargareja
três vezes ao dia.
Entesoura
essa densidade
do corpo,
esse grau
de intensidade
a que chamas
tesão:
pode ser
o primeiro bem
a faltar-
-te
ou talvez
não te sobre
outra coisa. *
*(como ao burro marroquino
de Canetti).
Não levantes
as pedras
em busca da salvação.
Tudo se passa
sobre elas,
no mesmo caminho
por onde vais
ao supermercado.
Se esperares,
quem esperas?
Se não esperares,
que te espera?
Acima de tudo
não desesperes.
Aperta-te
na tua pele
e repele
todas as personagens
acima
e abaixo
do teu número.
De outro modo,
podes sempre
optar pelo teatro.
Passarás o rio
no ferry de Caronte,
mas, para tua segurança
e de todos
os outros
passageiros,
deverás permanecer
sentado
até a viagem terminar.
Apalpa o terreno
antes da aproximação.
Apalpa
o colchão
para saber se é duro
e o melão
para ver se está maduro.
Apalpa a enfermeira
junto do coração.
Apalpa a carteira
para tomares o pulso
à situação.
Atravessa a rua
depressa
e num só lance:
retroceder
pela metade
pode ser
funesto e final.
Mas se a rua
te parecer
metáfora,
vê lá se a pressa
não te faz perder
o sentido
da travessia.
Lembra-te:
o trato com
quem trabalhas
retrata
a destreza
com que, à mesa,
usas os talheres.
Respira o sol
na carnação madura
dos frutos,
no fio civilizador
do azeite,
no cântico sápido
do vinho,
e ama o riso
sob as pálpebras.
Se para escrever
te abrigas
sob as árvores,
lembra-te
de que por vezes
as folhas falham
e os ventos
se precipitam em vão
entre a luz e o dia.
Aguarda.
Ou pelo menos
guarda
por agora
todo o tanto que sabes,
para não te
gozarem
o grotesco
e acusarem
de gorda ignorância.
Trata de saber
ao certo
se o teu
enlevado e
solícito desvelo,
ou mesmo
esse zangado
excesso
de zelo,
são afinal indício,
ou não,
de uma profunda
e fatal dor
de cotovelo.
Para os antigos
a tragédia
era da ordem
do irremediável.
Não deixes
a tua ser o medo
do remédio.
Do remorso
não queiras fazer a prova
de esforço,
mas não te canse
o arrependimento,
nem a contrição
te arrepanhe o intestino,
sobretudo
se o destino
não te corrompeu
o coração.
Quando tudo
que te escapa
se concentra
numa só ideia,
é já tarde
para tu próprio
escapares
dessa teia.
Afasta a ilusão:
os teus medos
mais secretos,
e a tua solidão,
são bem reais.
Inconcretos
são apenas
os dedos
que te apertam
o estômago.