Dicionário Pessoal/ RESPIRAÇÃO
Função que permite a inspiração e a expiração consecutivas. Por ser condicionada por numerosos factores internos e externos, a respiração constitui a mais exigente das ciências: na vida em geral, mas sobretudo no amor.
Função que permite a inspiração e a expiração consecutivas. Por ser condicionada por numerosos factores internos e externos, a respiração constitui a mais exigente das ciências: na vida em geral, mas sobretudo no amor.
Termo com que se designa uma pessoa ou objecto que não conseguimos evitar. Figura publicamente omnipresente: muito mais notória que notável. Modismo, de uso detestável, cujo significado se confunde, muitas vezes erradamente, com o de indispensável. O que não conseguimos evitar, por força de circunstâncias que não determinamos, nem sempre é indispensável. Aplicado a pessoas pode ser, por vezes, um enorme aborrecimento ou uma clara injustiça. Aplicado a coisas e a situações, os poderes, central e local, têm demonstrado a sua vacuidade.
Sabor do que é amarescente. Travo adstringente. Diz-se do gosto deixado pelo desgosto. Nesta acepção, aplicado a gente, diz-se também amargura.
A epopeia clássica é um poema narrativo, composto em hexâmetro dactílico (formado por seis dáctilos, uma unidade métrica de versificação constituída por uma sílaba longa seguida de duas sílabas breves), cujo assunto são os feitos praticados por heróis, superiores em força e coragem, engenho e astúcia, mas que dependem dos deuses, que intervêm na orientação das suas acções. Porém, é o mais doloroso verso lírico camoniano —«Errei todo o discurso dos meus anos»— que contém a única epopeia que o homem moderno seria capaz de compreender.
Representar o pensamento por meio de sinais gráficos. Há coisas, porventura demasiadas coisas, que só a escrever se pensam, que só escrevendo se dizem — porque as dizemos primeiro para nós. De outro modo, falhando a minúcia da expressão, embaraça-se o tempo na pressa da conversa e o pensamento, desatento, precipita-se na superfície escorregadia das palavras e das circunstâncias.
Deixar de fazer ou dizer: modelação da realidade. Esquecer, involuntária ou voluntariamente. Ocultar. Apagar. Seleccionar. Na economia da construção da verdade significa subtrair. Mentir de forma politicamente mais subtil ou juridicamente menos gravosa.
O dia antes. O dia ou dias antes do dia. O momento em que se está à beira de. Toda a véspera contém uma espera; cada espera, desespero e esperança.
Sonhos são vertigens desentranhadas, temores velados por paisagens inacessíveis, sombras de culpas de que (nunca) nos desculpámos.
Estado de privação do sono, pleno de inquietações fantasiosas ou de fantasias inquietantes, acalentadas por lúcidos mas lúgubres fantasmas nocturnos. Recanto da memória onde se guarda a banheira de Arquimedes. Numa acepção não literária, a noite torna-se redonda, sem princípio nem fim, só noite.
Tristeza que se transmite aos ossos. Abatimento visceral. Brando alcoolismo de silêncios.
Dicionário Pessoal é publicado também, a partir de hoje, na revista Livros & Leituras.
Ceder aos tempos e às circunstâncias. Deixar-se torcer ou torcer-se para não quebrar. Acomodar-se. Fingir que se gosta do que não se gosta. Resignar-se. Desistir. Consentir. Confunde-se, por vezes, na prática, erradamente, com manifestação de tolerância. Pode, raras vezes, significar estar à altura das circunstâncias, mas, na maior parte dos casos, tem um sentido exactamente contrário.
Trejeitos de mulher mundana, frequentemente notados nos chamados actores políticos, sobretudo do sexo masculino, e muito frequente, também, no meio literário e artístico. Atitudes afectadas; tiques amaneirados. Sintaxe gesticular e posicional, mais ou menos personalizada, associada a um processo discursivo presunçoso ou artificial; os campos lexicais que lhe estiverem associados.
O alarve pode ser um rústico, mas é pela grosseria, pela bruteza, pelo excesso que se torna alarve. Pode ter-se comido alarvemente e ser-se um tipo decente. O que é diferente de comer como um alarve. O alarve gosta de pavonear o excesso, e esse é um registo particularmente alarve. A ignorância ostensiva é alarve. A importância empinada é alarve. O alarve tem a mania. Frequentemente tem a mania das grandezas. Há mais alarves entre os homens, embora a alarvidade se possa manifestar independentemente do género. O alarve é um campeão do sexo explícito no discurso, mas é, ao mesmo tempo, um mestre do eufemismo e da alusão. O olhar constitui uma manifestação particularmente rica do alarve. Há ideias alarves. Chama-se alarvejar à acção dos alarves, que é também o termo onomatopaico que se lhes aplica. O alarve gosta de cooptar os outros para a sua própria alarvidade. O alarve gosta de mandar, razão pela qual há muitos alarves na política e no poder. O alarve gosta de fazer voz grossa, mesmo que, por vezes, ela soe aparentemente como um sopro inofensivo. O alarve pretensioso gosta de usar as pessoas: no bolso ou na lapela.
O alarve pode ser um rústico, mas não é por isso que é alarve. É pela grosseria, pela bruteza, pelo excesso que se torna alarve. O que significa que a rusticidade não tem que ver com o caso, uma vez que a grosseria, a bruteza e o excesso não são exclusivo do rústico, nem o rústico é necessariamente um alarve. Pode ter-se comido alarvemente e ser-se um tipo decente. O que é diferente de comer como um alarve. O alarve gosta de pavonear o excesso, e esse é um registo particularmente alarve. O alarve arrota, literalmente, nos casos mais boçais, e, metaforicamente, nos casos de maior sofisticação. A ignorância ostensiva é alarve. A importância empinada é alarve. O alarve tem a mania. Frequentemente tem a mania das grandezas. O tipo engravatado que, ao almoço, afunda o nariz no prato exibe, além do rolex, a sua grosseria alarve; aquele outro, só compra o que for mais caro, mais recente e com mais botões. O alarve da construção civil assobia às gajas e diz coisas como «és boa com'ó milho», «comia-te toda», ou outros mimos mais elaborados. O alarve da alta sociedade é muito mais suave, delicodoce e meloso com as mulheres, mas alarvemente brejeiro com os amigos. Há mais homens alarves do que mulheres, embora a alarvidade se possa manifestar independentemente do género. O alarve é um campeão do sexo explícito no discurso. O alarve gosta de contar anedotas com frequência, sobretudo picantes e que lhe dêem oportunidade para dizer dois ou três palavrões. Se escreve, gosta de escrever os ditos palavrões, com particular incidência na conjugação, reflexa ou não, do verbo «foder». Porém, o alarve é também um mestre do eufemismo, repetindo com assiduidade expressões como «fogo», «fónix», «tintins», etc. O olhar constitui uma manifestação particularmente rica do alarve. Há também ideias alarves. Chama-se alarvejar à acção dos alarves, que é também o termo onomatopaico que se lhes aplica. O alarve gosta de cooptar os outros para a sua própria alarvidade, por exemplo quando parte do princípio que os outros gostam das mesmas coisas ou pensam da mesma maneira. O alarve gosta de mandar, razão pela qual há muitos alarves na política e no poder. O alarve gosta de fazer voz grossa, mesmo que, por vezes, ela soe aparentemente como um sopro inofensivo. O alarve pretensioso gosta de usar as pessoas: no bolso ou na lapela.